Dos falsos espelhos

 

Se se comete tantos enganos nas brechas da fala

— Como a impedir a dor errante das noites surdas —,

Elegias são as únicas saídas.

Engano, porém, não seria classificar esse como uma.

Como uma que berra,

Que sonoriza seu temor,

Que revela seu pudor,

 

Ritmando o tremor.

Se se contenta com cantos risonhos da fala

— Numa medida conformada de pálpebras caídas —,

Heresias já estão cometidas.

Estranho, contudo, é crer mais na dissimulação.

Como uma verdade,

Que simboliza o horror,

Que desvela com fervor

O engano arrasador!

 

 

 

 

 

 

 

A sorrideira

 

Reguei as flores dos canteiros de sua estrada,

Sua insensatez as destruiu.

Acolhi o passado insustentável

Por muito tempo.

Recolhi no pó das sorrideiras

Ilusão, esperança, confiança!

 

Sorrideira, formidável árvore!

Quisera sempre sentir teu balançar,

Num ritmo de comunicação.

Bem sei que não fazes assim com muitos.

 

No pomar de Jorela, as corujas agouravam,

As plantas pálidas agonizavam,

O horrendo ali habitava.

 

Ó, formidável sorrideira, clamo-te linguagem

A esse conjunto de plantas,

Que faça brotar aí filha única tua!

Pois sei que só tu és capaz...

 

 

 

 

 

 

 

O término da sequidão

 

É mesmo incrível!

Surge de supetão. Quando você menos espera, lá está!

E brota sensações carnavalescas,

Quando se é possível visualizar seus passos.

E quando sussurra, e quando sente o degelo, 

E quando se ouve a melodia dos pingos d’água açoitar a palha do coqueiro,

O marulhar das ondas, a dispersão dos grãos da fina areia branca da praia,

Com o vento a reger essa orquestra,

Sincronizando toda uma intenção.

Como se estivesse a formar palavras invisíveis no ar.

A letra preferencial do regente, na ocasião, é a primeira do alfabeto,

Que, quando disposta na ordem certa unida a mais três, forma A simples palavra.

O que ela representa, no entanto, não é possível se ler nos dicionários.

 

E tal fisgada me dispõe a querer iniciar um desses versos com A letra.

A letra que me sobe nos órgãos,

Que me inverte o sentido da vida,

Que me faz sorrir sem situação engraçada,

Que me abobalha, e me faz criar novas palavras,

Que me faz ser simples, e me deixa ser livre nas repetições,

Sem que elas se tornem cansativas.

A minha predileta!

A única!

 

A letra precisou de um tempo para se tornar estável,

De um tempo para encher as rachaduras do ardente solo sertanejo,

De um tempo para florir no chão exaurido do líquido precioso,

De um tempo para beber do ardente sabor

Que ouso a dizer ser divino.

Divino, pois enverdeceu o inabitável.

Do gris ao íris eterno.

Da rouquidão à doçura da voz feminina.

Do complexo ao simples e apaixonante.

Do casmurrento ao extrovertido. 

De mim para ti.

 

 

 

 

 

 

 

Os versos do mundo

 

Por aqui passo,

Por aqui deixo o meu rastro.

Por aqui lembro,

Por aqui não lembro.

Por aqui não preciso,

Por aqui necessito.

Por aqui sorrio,

Por aqui lamento.

Por aqui aproveito.

Por aqui regresso

Ao meu devaneio,

Respiro mais uma vez,

Desmaio em teu esteio,

Suspiro de alívio.

Por aqui crio aspas,

As minhas, as próprias, as únicas!

Por aqui, não mais n’outro mar.

Apenas aqui!

 

 

 

 

 

 

 

Libriana                                                                                 

 

Do que me resta das poucas palavras que já sussurrei pelos horizontes,

Nenhuma exclamou aos tempos injúrias do mais íntimo desejo:

Apenas falaram em silêncio.

No silêncio entristecedor dos fins de dias, do pós-último fôlego,

Do tom que põe fim a uma melodia em menor.

Outrora, num passado acabado.

 

Agora, no entanto, mesmo com a trêmula voz, esbravejo numa agonia,

Mas na consciência de estar pondo mérito em meu ex-cordão,

Que me foi responsável à vida.

O silêncio sempre foi doloroso a mim, a outros, a todos.

A voz verdadeira, porém, não é sempre bem quista:

Entristece, quando profunda, enrijece, quando em vários instantes.

 

Às vezes, portanto, é necessário desviar um pouco da linha reta,

Para ver o encanto das curvas, dos meandros.

Nunca sempre tão coerente.

Nunca sempre tão geminiano. Por vezes, Libriano.

Libriano... Libriana... Libriano... Libriana...

 

 

 

 

 

 

 

Em sua dura revelia

 

Estou com as pernas invertidas.

Extravasando a cada momento, com tal gozo

Numa luminosidade incrível.

Apenas fico sequioso na sua ausência.

Apenas?

Não!

E que a saudade faça o meu mundo diferente,

Já que uma parte dele arruína,

Já que me dói a labuta dessas estrofes.

Que se isso escrevo não é senão o seu efeito.

Redijo?

Não!

Choro o mais profundo rogo dos humanos,

Na ânsia de seu retorno,

Na esperança de uma escura noite veloz.

Amanhã, o dia jovem me faz gesto agradáveis.

Mas, logo a noite retorna.

E mais uma vez sem os rufos de seu colo passo.

Passo?

Não!

Tento em meio ao relento da madrugada

Que teima em retardar sua vida.

E que destroça meu sono.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Solidez das inconstâncias: Januário.

 

— Escrever no fervor sentimental é realmente inconfortante e doloroso. A exaltação do meu profundo sentir, no entanto, não pode ficar às ocultas. Talvez seja mais por uma necessidade que por uma retratação — ou um relato — do meu estado de espírito.

 

Era o que ouviam, constantemente, as paredes internas da sala de Januário. Aí, todos podiam entrar, e sussurrar, e falar, e explodir em vozes tenebrosas, e esvaziar a efervescência do líquido horripilante do silêncio. Tal fala era bastante comum, em virtude da freqüência de escritores sobressaltados para a representação gráfica de seus tormentos, de seus medos, de suas angústias. Coisas que não podiam vir a lume.

 

A taramela azul da porta única possuía um rangido bastante desconcertante e azucrinante, a lembrar a porteira de uma fazenda velha, corroída quase que completamente pelos cupins e pelo sol escaldante. Do lado esquerdo à porta, três corujas estavam, inteiramente, estagnadas, numa disposição a formar um triângulo, com seus olhares ardentes e nebulosos, envoltas por uma moldura arcaica, com detalhes de espadas aos cantos. Abaixo dela, um pouco afastado da porta, existia um centro redondo, com três pés, de mesma moldura do quadro, com um abajur disposto sobre sua diminuta superfície. A completar o móvel, uma cadeira de balanço com molas, que, junto ao som exprimido pela taramela, orquestravam ruídos estridentes.

 

Januário era um tipo de sala-casa. Mas, como? — sim, pode ser! Mesmo com alguns dos incômodos sonoros, sentar-se naquela cadeira centenária, com apenas a fosca luz amarela — quase laranja — lançada pelo abajur, era muito aconchegante. Eu nunca, lá, disso algo. Ouvia, exclusivamente, o eco das queixas ditas antes de minha chegada. Pensava, sentado por algum instante, no sofrimento daqueles pobres solitários. O som das vozes gritantes disputava espaço, em meus ouvidos, com os ruídos ásperos produzidos pela taramela e pelas molas. Malditas sejam essas ondas! Elas me atormentam!

 

A primeira vez em que lá estive, pensei em não mais voltar. As vozes, o ranger, as corujas, a luz fúnebre, tudo me atraiçoava e me fazia delirar. Isso esmagou meu corpo e minha alma. Meu erro eterno foi cometido. Encostado ao abajur, havia um jarro de barro com uma flor que julguei ter infinito tempo de vida, ser a barra vermelha do dia. Terrível julgamento! Minha sina era senti-la em minhas mãos, sobre meu peito, consumir seu cheiro atemporal, enamorar suas formas delicadas — ao menos era o que me parecia —, por um pingo d’água dar-te o inconfundível sabor da vida. Terrível engano! Aproximei-me cuidadosamente dela, aguardei seus polens e, só então, lancei-me ao desejo. Consumi-a lento e enganosamente. Todo o momento, eu estive ingerindo seu amargo líquido, que outrora me caia adocicado ao paladar. Mesmo assim, estando eu um pouco inclinado sobre o centro, suportei com minhas mãos trêmulas. Encontrava-me, do material ao espírito, entorpecido. Efeito de encanto. Minhas frágeis pernas não mais suportavam o peso de meu corpo. Solicitei, assim, auxílio no encosto esquerdo da cadeira, que passou a se balançar com meu corpo trepidante. Meus pulmões já não conseguiam captar o oxigênio necessário para minha respiração, meus olhos cerravam-se lentamente em temível desespero, meu sangue arrefecia. E, nessa ocasião, mais um instrumento se disponibilizava ao tom funéreo da sinfonia. Seus rufos assemelhavam-se ao anúncio de tempestades. A taramela e a mola lançavam notas funestas e sarcásticas. Senti as gargalhadas, que chicoteavam minha honra.

 

Sentia-me muito debilitado. Quase ajoelhado, não desistia de ter para mim a aguardente que provocou o meu último suspiro. Definhado, meu corpo cai a se balançar na cadeira. Terrível suspiro! E lá, ele permaneceu a se movimentar por um período, até que tudo silenciasse. A taramela carcomida cessou em menor. As vozes se perderam no fundo de meus ouvidos surdos. A cadeira seguiu o ritmo do mais recente, e de menor duração, instrumento.

 

— Enchi-te, dei-te os mais incríveis vocábulos, as essências que ardiam em cada pulsar, e, não obstante, apareci-me com o desleixo da escuridão e repleta de passados mais-que-perfeitos — obtemperei com angústia.

 

Pereci. E meu ar secava. Tentei dissimular meu triste fim, no outro mundo, com sorrisos que me paralisavam a face. Tudo era inútil. Pois, em minha peça, o roteiro tinha sido severamente castigado pela má atuação da falsa atriz. Tinha me tornado — ou será que esta cartilha já fora escrita? — em um pobre ser enclausurado na sua ânsia de amar.

 

 

 

 

 

 

 

 

A lógica da jura negada

 

Ao pôr-me a pensar no ato pérfido, não me vem outra imagem em mente senão a de um fariseu, de um calhorda, ao qual não se deve ter com a mais pífia das confianças. Negar (ou seria melhor trair? À escolha!) a fé jurada no íntimo dos sentimentos, demonstra aspectos aquém do egoísmo, do eu com o eu, apenas. Atitude não meritória. E tu, leitor de cabeceira, não tenha opinião antagônica, pois isso só comprovará seu insano instinto de "ver em suas mãos o sangue de seu irmão".

 

Caim não o teria feito, caso houvesse sido reconhecido aos olhos do Senhor. E Esse desistiu da perfeição na sua criação, simplesmente pela comprovação da incapacidade na realização de tal fato. "O homem é o lobo do próprio homem". Sim, é necessário aplicá-la aqui. Confesso, até, que me apresento em meio à corja humana, afinal somos únicos nesse ramo. Nossos instintos são os mesmos, variando unicamente na intensidade em que vem à baila de ser para ser.

 

Fomos criados, nós humanos, por um descuido e desequilíbrio no psicológico supremo — não que eu creia na veracidade da Teoria da criação divina das espécies, mas somente pelo lado poético —, por meio de um método não programado. De supetão! No entanto, é evidente que meu querido leitor do entardecer não se ver digno de castigo quando pratica atrocidades contra seu companheiro. Eu sei! Não precisa tentar se redimir. A tudo nosso amigo inseparável e traidor dos traidores, que nos leva nossa pele, nossa carne, nossos sonhos, nossos suspiros, nossos prazeres, nossas angústias, dará sua paga. Isso é normal. Recuperar o tempo desperdiçado?! Ah, é inútil! Ele mesmo se encarrega pôr sob terra o que está a suas costas. Talvez esse seja o lado positivo.

 

Porém, há uma expressão profunda do ser que, uma vez deslizada das mãos, o tempo é incapaz de deixar aos rumos do vento. Ela é tão lógica e única que não me estimula sua explicitação. Tu, leitor das minúcias, certamente saberá a que me refiro. Infelizmente não encontramos a lealdade existente entre Lotário e Anselmo. Para o mal, és que o encanto pela nossa elevação da espécie, junto à impertinência, rompe com esses laços de fidelidade. Semelhante ocorreu com Aleca¹. Por experiência, não há sensação igual. É, complexamente, horrível.

 

Agora, o pudor lhe enche a alma. Indubitavelmente, vez praticado o ato da desconfiguração de "Os dois irmãos", é inútil tentar restituir a situação de outrora, ao menos de intróito à cisão. Há de se ter paciência, quando a deslealdade for desprovida de extrema gravidade para as considerações. Porém, quando a alma se encontra fervorosa por tal situação, há de se pôr as imensuráveis tentativas nos betumes do tempo. Qualquer que seja a explicação ou o feitio para reverter à derrama do sangue sobre o espírito transforma-se em pinheiros ao deserto.

 

O homem, por natureza, é subversivo e, por conseguinte, subserviente aos seus instintos primitivos. No entanto, é imprescindível não se deixar tomar por essas sensações de atos efêmeros. É o cigarro da dignidade. A cada trago é consumido pouco a pouco; mas o desejo de sugá-lo para tê-lo dentro de si desespera, faz sofrer o imaterial, transtorna, estimula o "parar" e o "pensar", apodrece nosso pomar dos pomares, abarrota de sofrimento as inebriantes canções. O degelo de calotas a partir do sopro ocorreria com um labor diminuto, quando comparado à restituição da jura de alma.

 

Dissecar o método de agir, de sorte a prender os erros numa minúscula caixa desprovida de luminosidade — melhor seria reter os não erros, posto a natureza pervertida do ser, e seria impossível com um reduzido quadrilátero —, seria, concomitantemente, uma quimera, já que tal proeza não pode ser alcançada pela mais reles das raças de seres vivos, perfeita na resolução dos impasses humanos, e um ato desnecessário.

 

A verdade é que nunca haverá trégua entre o homem e a sua natureza da desconstrução e entre o homem e o seu semelhante. Atos pérfidos sempre serão cometidos, por mais decepcionante isso seja. Alguns jogados por terra no correr do tempo; outros, jamais aos ventos: eternizam-se. Perdoáveis ou imperdoáveis, mas ambos perenes dores na alma e no espírito. São os praticáveis, impraticáveis somente no nosso mundo ilusório.

 

¹Aleca é um neologismo. É a mistura de dois nomes próprios.

 

(imagens ©resurgere / medioimages /photodisc)

 

 

 

 

 

 

Alexandre J. Nobre. Escreve crônicas, poemas, prosas poéticas e é estudante de Letras na Universidade Federal de Alagoas.