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Comecemos com uma afirmação taxativa: não há uma retórica estóica.

Isso não significa dizer que os estóicos não se interessaram pela oratória. Zenão e Crisipo escreveram cada qual um livro sobre o assunto, que, como toda sua obra, só nos chegou de forma fragmentada, na voz de doxógrafos ou críticos. Aristo, discípulo de Zenão, que propunha descartar a lógica e a física em prol do conhecimento ético, escreveu um livro chamado Contra a retórica. Mas o título diz respeito talvez mais à organização do conhecimento num contínuo ético do que propriamente a uma oposição aos preceitos retóricos

1.

De modo geral, seria incoerente pensar em uma epistêmê estóica particular (a astronomia, a medicina, por exemplo), já que o mais relevante para os estóicos é o conhecimento pleno do mundo dividido em lógica, física e ética.

Essa divisão tripartite do todo deve ser entendida não como conhecimento instrumental, como um "olhar" particular e distanciado, debruçado sobre seus objetos específicos, pois a ciência dividida em três partes é o próprio objeto. Também não se trata de uma ciência que procura dar conta do mundo, já que o conhecimento específico seria inútil  (no que concordam estóicos e sofistas), pois a questão está em como o homem sábio deve viver e não como ele interpreta o mundo.     

Os exemplos figurais para esse conhecimento contínuo tripartite são o ovo, o pomar ou o corpo de um animal. No caso do ovo, a lógica é apresentada como casca; a clara, como física e a ética, como gema. No exemplo do pomar, a lógica é a cerca; a física, as árvores; o fruto, a ética. E no exemplo do corpo, a lógica são os ossos; a física, o sangue; a ética, a carne. Eis uma dificuldade: esses tópicos são bastante claros para a compreensão das partes, mas são redutores se não forem compreendidos como phantasías.

 

Phantasías são "exemplos figurais" e não metáfora. O ovo, o pomar ou o corpo não são transposições do conhecimento pleno, mas uma "fantasia", uma visão ou um desenho da doutrina. Há outros, como o das etapas do entendimento, apresentados pela mão aberta, entreaberta e cerrada. É preciso então definir primeiro a phantasía e a relação dela com a lógica, a física e a ética, para daí então tratarmos da retórica2.

Os estóicos chamam de phantasía uma imagem sensorial produzida na parte hegemônica da alma (hegemonikón). Simplesmente, uma tipose. Cleantes se referia a ela como um relevo na alma (bem como Platão, em Teeteto), uma imagem material, calcada numa superfície  e que simplesmente é. No instante em que a phantasía se dá, não há ainda sentido. Enxergamos apenas borrões de luz. Mas quando concordamos estar diante de algo verdadeiro, a fantasia passa a ser denominada fantasia kataleptikê. Temos então a capacidade de ver um vaso sobre a mesa. Mas, além dessa capacidade trivial, podemos, como os desprovidos de razão, identificar a phantasía com um outro objeto, alucinadamente. Podemos ainda ter nossas próprias "fantasias", compostas, como em um sonho, sem correspondência com o real, como por exemplo a imagem de um centauro. A visão produzida sem um correspondente real é denominada phantastikón, quando na alma, e phantasma, quando localizada no mundo pelo intelecto. Assim, um centauro no pensamento é um phantastikón, e se aparecer supostamente no mundo, é denominado phastasma.

 

 

A phantasía platônico-aristotélica e a estóica

 

Sabemos que Platão se refere a phantasía, pejorativamente, como uma mistura de sensação e opinião. Aristóteles a reconhece como parte sensitiva da alma, juntamente com o sonho (Dos sonhos II 459.23), mas separado do logos, e diz que a palavra phantasía deriva da palavra luz (phôs), tal como propõe, posteriormente, o estóico Crisipo (SVF II 54). Embora seja o mesmo vocábulo, o conceito de phantasía estóico é bastante distante do platônico-aristotélico, pois a phantasía aritotélica é chamada pelos estóicos de phantasma, que é o correspondente supostamente real de uma imaginação (phantastikón).  

A questão é que para os estóicos a imagem precede a definição, pois conforme sua teoria material o logos, identificado com deus, está na matéria. É ele, por exemplo, que garante que um organismo mantenha todos os seus elementos coesos (o que denominam suntonia) e tenha já uma forma. O logos estóico é um elemento dotado de inteligência em si, que tem o hábito de se misturar com a matéria, alterando-a conforme sua vontade (divina). Como razão seminal (logoi spermatikoi), paira no éter, além da matéria. Ao se misturar com o mundo na forma de pneuma, e num exercício circular e infinito chamado krásis, é responsável pela geração e degeneração constante do universo.

A alma humana é a única ser capaz de identificar esse logos na matéria. E para isso acontecer, a alma passa por três momentos. Um, passivo, apresentado alegoricamente pela mão aberta e denominado phantasía. Já quando concordamos estar diante de algo verdadeiro, denominam, como dissemos, phantasia katalêptikê, que implica um assentimento ou critério de verdade. — Os dedos prendem o objeto —. E um terceito momento, que é o da compreensão (katalêpsis), cuja figura é a da mão fechada. Assentimento e compreensão são aparentemente movimentos ativos da alma. A compreensão permite que a alma, pela memória, produza relações entre phantasías de tamanho e posição que podem ser apontadas pelas proposições, no tempo e no espaço. Com isso, é possível estabelecer um critério de verdade baseado nos sentidos e na matéria, que não passa pelo conceito ou pela definição, como em Platão ou Aristóteles.

Segundo os estóicos, é errado pensar que a alma seria capaz de separar a razão seminal da matéria. O que ela pode é apenas identificar sua presença no mundo.

A phantasía, portanto, é o ponto de partida para a doutrina lógica e material estóica, que procura a adequação da vida às leis éticas da natureza.

 

 

Conceitos fundamentais da doutrina estóica:

 

A doutrina estóica é apresentada de forma circular e não estrutural, de modo que todos os seus elementos devem se relacionar, e os principais conceitos valer para qualquer uma das partes. Assim, para uma aproximação mínima, é preciso lembrar, didaticamente, três questões: primeiro, como já dissemos, quais são as particularidades de cada uma das três ciências; segundo, que é preciso considerar que o sábio está no centro da doutrina, já que é ele exemplo de virtude; terceiro, que o mundo é dividido entre corpos materiais e imateriais, e que os incorporais são somente 4: tempo, espaço, vácuo e o "dizível" (lekton) .

 

1. As três ciências:

 

Resumindo grosseiramente as particularidades de cada uma das três ciências do conhecimento contínuo estóico, podemos dizer que a física é próprio mundo, composto de dois elementos somente: matéria primeira e logos; a lógica é o lugar da relação, pela discursividade, da alma com o mundo.  E a ética é a observação prática que faz com que o sábio viva conforme a natureza, distinguindo entre o certo e o errado, e, principalmente, entre o errado e o indiferente (adiafora), tal como a morte, por exemplo, que não deve preocupar o homem, já que é algo inevitável e não diz respeito à sua vontade.

Historicamente, as questões estóicas respondem a outras doutrinas. Podemos dizer, assim, que a lógica estóica pretende formular uma resposta alternativa para a questão platônica da imaterialidade da forma e da idéia; e que, para a física estóica, reabilita a materialidade das doutrinas pré-socráticas, principalmente a de Heráclito, postulando que o mundo é composto de matéria e calor. O calor, por sua vez, é o sinal da presença de um ar quente denominado pneuma, que é o portador da razão seminal (logoi spermatikoi), elemento que, misturado com a matéria, dá sentido às coisas. E, por fim, podemos dizer, ligeiramente, que a ética estóica responde ao conceito de prazer de Epicuro, ao estabelecer uma tendência paradoxal entre a escolha do sábio e a lei da natureza.

 

2. O corporal e o incorporal:

 

A doutrina estabelece que a física é o lugar do corporal e do incorporal e, também, da relação de um elemento com o outro. A distinção entre material e imaterial é fundamental para a compreensão da doutrina.

Resumidamente, são quatro os incorporais: o tempo, o espaço (que é o que está além do mundo), o vazio (que é o lugar entre os corpos), e o lekton, traduzido por Bréhier como "dizível", mas que pode ser entendido aqui, provisoriamente, como expressão sem imagem — os dêiticos, por exemplo, que apontam para uma pessoa ou objeto, "aquele", "aquilo", para um lugar, "aqui", "ali", para um tempo, "ontem", "hoje".

A doutrina estabelece também que nenhum incorporal age sobre um corporal, mas os corpos agem sobre os incorporais e sobre si mesmos. Assim, tempo, espaço, lugar e expressões sem imagem (lekta) não corrompem nem geram matéria e portanto são elementos eternos.

 

2.1 Os dizíveis:

 

A phantasía, como vimos, é um corpo tão concreto quanto seu referente no mundo, e serve de ponto de partida para a discursividade lógica. As que tratam das fantasias na discursividade são as proposições (axiomai), que são imateriais e que, portanto, não alteram a matéria, pois se assim o fizessem estariam no lugar de deus, como logoi spermatikoi.

O logos não é razão humana, como para Platão ou Aristóteles, e sim a parte coerente do mundo, independente do homem. O logos na pedra é a tensão, na planta é a natureza dos fluxos (phusis) e a alma (psukhê), no homem. As conseqüências teóricas disso são três: 1. não há conceito, 2. não há universal, 3. tampouco dualismo entre alma e matéria.

Não cabe ao homem definir o sentido das coisas, pois a forma está na fusão da matéria com os logoi spermatikoi. Além do mais, de acordo com a doutrina, alma e mundo formam um único corpo3.

O logos atinge a alma por contato direto com o mundo ou, no diálogo entre homens, pela proposição. A palavra "luz" por exemplo, quando expressa, é entendida como um sintagma completo, cujo verbo está suprimido: "há luz".  Assim, os estóicos pensam em sintagmas ("há luz", "vejo", "é branco", "sentado" ou "isto aqui"). Para a alma só há particulares, pois a cadeira que vemos é tão única quanto a que está diante de nós. Assim, não há nenhuma teoria das idéias possível ou qualquer definição ou "conceito" universal. A presença das coisas como fantasia é o que basta para validar o mundo.

 

 

A proposição na fala

 

Toda proposição (axioma) é um imaterial composto de desinências (verbais ou nominais) e predicados (katêgoremai), que são as partes de uma oração.  

A lógica (termo cunhado pelos estóicos) versa, então, sobre os efeitos da palavra na memória e no diálogo, de acordo com a física, que denomina a ação dos corporais e dos incorporais. Para melhor entender esse problema, é preciso lembrar que não há representação mas sim phantasía, pois ao vermos algo, temos sempre dois elementos concretos: um no mundo e outro na alma, ambos dotados do mesmo pneuma, mas de matérias diferentes. Ambos particulares. E quando somos levados pelas palavras a ver de olhos fechados, também recebemos elementos tão concretos quanto uma pedra, uma árvore disposta no mundo.

Assim, pode haver, por exemplo, um vício na matéria ou na parte imaterial da compreensão de um discurso. Caso o ouvinte não entenda que a palavra "cadeira" aponta para o objeto, tal como um estrangeiro que entende a articulação do som, mas não "vê" o objeto, há o barbarismo. O problema é material e está na identificação da fantasia. E se o orador se expressar com uma sintaxe incorreta ("nós é"), há um erro da desinência na proposição, ou na parte incorpórea da expressão. 

A relação discursiva entre expressão e imagem e não entre palavra e coisa, num primeiro momento, aparenta ter deslocado a filosofia para a linguagem ou para a gramática. Mas não seria correto pensarmos assim, dados o plenum da ciência e a operação entre o corpóreo o e incorpóreo.

A expressão sem imagens, como denominamos os lekta, não se confunde com o que chamamos modernamente linguagem. A língua (que em grego é dialekton) é um conjunto de phantasías passíveis de ser associadas a outras fantasias, presas a desinências e predicados. "Onde há fumaça, há fogo". "Onde" e a noção passada do verbo "haver" são incorporais. Nesta frase elementar, há duas fantasias compreendidas (phantasía kataleptikê), e três incorporais: o  lugar, o tempo e as desinências.

Ao contrário da teoria saussuriana, o significante (to sêmeion) na doutrina estóica não é imagem acústica, mas a fantasia (ou representação concreta na alma), isto é, objeto produzido pelo pneuma no hegemonikón da alma. E o significado (to sêmainomenon) não é o conceito ou a definição, mas o objeto material correspondente no mundo. Também não faz sentido pensar em uma linguagem do ponto de vista estóico, pois não há uma estrutura interna. Por isso, a palavra para língua se traduz em grego por dialeto (dialekton), universo no qual as palavras podem apresentar diferenças, mas não apontam para fantasias diferentes, o que seria um barbarismo.

Há, portanto, uma relação entre a figura na alma, que é material, e o lekton imaterial, que permite uma nova articulação retórica, aparentemente centrada na elocução. Já que é possível falar das coisas de várias maneiras, pois o objeto no mundo não é o objeto no pensamento, embora ambos sejam materiais, a questão passa a ser a apresentação e a composição desse objeto e não a sua forma ou definição. Como não há metafísica, mas sim uma física humana — a da alma — que é parte de uma física maior, ganham importância temas como a clareza (safaneia), a concisão (suntomia), a evidência, a diferença entre figuras de pensamento (skhêmata dianoias) e figuras de palavra (skhêmata lexeôs), mas também a alegoria, a ekphrasis, o tropo e a figura como estratégias discursivas distintas, e a poesia como constituinte de virtude.

 

 

As virtudes

 

Poderíamos dizer que a retórica estóica, ao contrário da aristotélica4, centra-se no argumento (aquilo que Aristóteles também chamou de logos), e não no ethos.  A virtude não estaria no caráter, mas no argumento evidenciado. Diógenes Laércio define virtude como sinônimo de perfeição (VII, 90). A virtude também pode ser, de acordo com ele, teorética ou ateorética. Ateoretikê significa, literalmente, "a que não exige observação", como por exemplo a saúde, virtude que até mesmo homens ruins podem ter. A outra, teorética é adquirida pelo assentimento (sugkatathesis). A questão é, nesse caso, a observação.

Como vimos, o assentimento é o segundo momento em direção à compreensão, em que a alma apreende a fantasia, que passa a se chamar phantasía kataleptikê, mas ainda não é capaz de reproduzi-la ou associá-la a outras fantasias, através das desinências e predicados. A virtude é então o julgamento sobre uma fantasia perfeita. O sábio é aquele que tem uma pré-disposição (hormê) para se deixar penetrar pelo pneuma que atingi seu hegemonikón, lugar da virtude (SVF Ce 459), de forma mais clara.

Os estóicos postulavam quatro virtudes básicas estóicas (a coragem, prudência, moderação e justiça), que não servem para definir propriamente o caráter do ser. São antes movimentos perfeitos  da alma do sábio com relação ao entendimento (a fantasia, a fantasia compreendida e a compreensão).

Quando escrevem que a virtude é inata, não querem dizer que o sábio nasça com elas, mas, antes, que a matéria do seu corpo é perfeita para receber a matéria do mundo. A perfeição está na mistura da matéria com os logoi spermatikoi (krasi). Supõe-se que, para o sábio se predispor ao logos da natureza, é preciso saúde, mas também coragem, prudência, moderação e justiça. Pois a coragem lhe dá o ímpeto para apreender (haireteon) ou evitar uma fantasia, um movimento em direção ao mundo. A prudência lhe fornece a capacidade de julgar a fantasia boa ou ruim, ou indiferente (Diógenes Laércio, VII 94), a apathéia. A moderação (sôphrosune) é o conhecimento que organiza e limita os prazeres (SVF AC 375) e permite que o sábio escolha ou abra mão das fantasias boas (SVF Ce 562), uma espécie de seleção diante da imensidão manifesta que denominam eupathéia. E a justiça é a capacidade de partilhar o que se julga bom (SVF AC377) com os outros. A coragem, a prudência, a moderação e a justiça são virtudes primárias, das quais derivam-se as demais. Todas elas traduzem um movimento perfeito diante dos objetos do pensamento. A rigor, a virtude deve ser entendida também como uma fantasia, que predispõe a alma a perceber o mundo.

A dificuldade maior é se compreender como uma imagem atua na alma, de modo a ajudar a perceber o mundo, através da apreensão das fantasias. Isso porque não se deve conceber a fantasia como virtude de caráter e sim como um quadro, uma pintura moral, com a qual a alma tende a comparar a própria imagem que tem de si diante dos momentos do entendimento.

 

 

As noções básicas da alma na operação com fantasias

 

Portanto, há no estoicismo uma gramática que estabelece sobretudo uma relação entre fantasias.

O primeiro preceito lógico é que há operações básicas entre fantasias, denominadas noções elementares. Uma fantasia pode ser comparada a um objeto do mundo ou a outra fantasia das seis maneiras: 1. por contato direto (peripsosis), 2. por semelhança (homoiotêta), 3. por analogia, 4. por transposição (metathesis), 5. por composição (sunthesis) ou 6. oposição (enatiôsis). Diógenes Laércio define assim:

 

O contato direto advém da noção de coisas sensíveis. A noção por semelhança advém de noções prévias, como a entre Sócrates e o seu busto (eikonos). As noções por analogia são aquelas derivadas do aumento, como a de Titios ou a de um ciclope, ou da redução, como a do pigmeu, ou assim como a do centro da terra concebida em analogia com pequenas esferas. Por transposição, criaturas com olhos no peito. Por composição, o centauro por exemplo. E por oposição, [a vida para] a morte. 

 

A partir dessas seis relações entre objetos (contato direto, semelhança, analogia, transposição, composição e oposição) é possível a criação de um objeto que existe ou não no mundo, mas que é material, na alma. Vejam que a relação de contato direto da alma com um objeto no mundo é incluída no mesmo grupo de relações entre imagens dentro da alma. Mas, excetuando o contato direto, as outras noções gerais tendem a criar um ser verdadeiro, mas sem referente, como um centauro, por exemplo. E as possibilidades de um argumento independem desse referente.

Os argumentos que contam com uma phantasía sem referente (o centauro ou a terra com asas, por exemplo) são chamados de ennoêma, que podemos traduzir provisoriamente por noções em si. Essas noções especiais são definidas como fantasmas do pensamento (phantasmas dianoias).

Assim, o homem pode com o auxílio de deus, que produz sentido, dispor e compor fantasias, deiticamente.

 

 

            A progressão (prokopê) da alma em direção ao modelo do sábio

 

Para se aproximar da posição do sábio, os filósofos estabeleciam uma educação gradual, semelhante à proposta por Isócrates no século IV aC.  Os jovens, aptos por natureza (phusei), deveriam estudar gramática, retórica e filosofia, guardando essa ordem. As aulas de gramática do período helenístico consistiam no cotejo dos textos, na leitura em voz alta, na explicação e no juízo. Assim como Isócrates considerava a retórica parte fundamental do ensino superior, pois servia para apurar o juízo pela repetição dos modelos (mimesis), assim parecia ser para os estóicos, que afirmavam a necessidade de uma coleção constante de fantasias, por um aprendizado gradual denominada prokopê, útil não só para a lógica, mas principalmente para a ética. A poesia e a retórica epidítica tornaram-se a base do ensino no período helenístico, o que era perfeitamente explicável com o modelo doutrinário estóico.

Assim, Diógenes Laércio (VII 60) diz que "a poesia é uma obra (poema) com sentido (semantikon), que inclui um modelo de coisas divinas e humanas". Devemos entender a palavra "sentido", semantikon, como a matéria misturada ao pneuma. A poesia então é portadora de um sentido material e divino, em fantasia, e de uma arte humana, em proposição. A educação gradual faz com que um poema seja apreendido pela alma tal qual uma fantasia por contato direto, tornando-se um ennoema, ou uma noção em si, uma propriedade da alma. Há portanto um sentido alegórico na poesia, que procura primeiro colocar a fantasia diante dos olhos do aluno, para depois operar as noções gerais de analogia, composição, oposição, transposição e semelhança. 

Orígenes, apologista cristão, criticou o sentido "alegórico" que Crisipo atribuiu a uma pintura em Samos, para tentar explicar a ação do logos.

 

O que me resta senão falar sobre aquela história sem sentido que os gregos contam sobre seus deuses, por si só indecentes, mas que são dispostas por princípio alegoricamente (allêgoroumenas)? O filósofo Crisipo, por exemplo, conhecido pelos seus belos escritos, interpreta a pintura (graphên) de Samos, na qual Hera é retratada cometendo atos infames com Zeus. Ora, o tal célebre filósofo sustenta na sua obra que a matéria, acolhendo a razão seminal de deus, a porta em si a fim de dar forma ao mundo.  (SVF Bf. 1075)

 

Na alegoria,  Zeus representa o pneuma e Hera, a matéria. A pintura pode ser entendida, alegoricamente, como criação, se as causas forem divinas, ou percepção, se forem humanas. O poema pintado torna-se enoema, fantasia sem referente. O poeta, assim, dispõe elementos materiais divinos, atuando no tempo e no espaço próprios do quadro do pensamento do ouvinte, a fim de produzir memória, ou fantasias que podem mais tarde ser comparadas pelas noções básicas com outras fantasias "abstratas", como as virtudes, ou "concretas", como uma árvore.

 

 

            A concisão e as outras virtudes do discurso

 

Como o poeta deve compor e apontar para a fantasia é uma questão de precisão, a qual os estóicos denominam brevidade ou concisão.

É sabido que a retórica estóica acrescenta a concisão (suntonia) às quatro virtudes da eloqüência estabelecidas por Teofrasto (Cic. De Orat.): a correção (hellênismos), a clareza (saphêneia), o decoro (prepon) e o ornato (kataskeuê).

A concisão diz respeito aqui à relação entre a lexis, que é a imagem da palavra escrita, e seu referente material, a fantasia. Um discurso conciso é o que traz rapidamente a fantasia diante dos olhos do ouvinte. É uma mostração, em que não se discute nenhuma prova lógica, e portanto nada tem a ver com a demonstração (apodeixis), própria da clareza. Diógenes Laércio a define como "a fala (lexis) necessária para trazer a coisa (pragma) para a 'mostração' (dêlôsis)". Por isso talvez os latinos a tenham chamado de evidentia (Quint. 8.3.61-71), retomando o que outras autoridades gregas denominavam enargeia, e recolocando a ineficácia da aridez estóica diante da necessidade de figuras de amplificação, e de variações de dicção e gêneros.

A virtude da clareza está no plano da demonstração e, portanto, mais próxima dos argumentos tópicos da invenção. Uma fantasia pode ser lembrada por uma ou várias palavras e até mesmo por uma proposição. "A cadeira", "o acento", "o lugar de sentar" referem-se a um único objeto, sem prejuízo para o entendimento. Mas a definição ou demonstração pode apontar para dois objetos e se tornar obscuro ou ambíguo. Torna-se viciosa uma palavra que apontar para muitas fantasias, principalmente as de espécies distintas, tal como "manga", que significa a fruta "manga" e a "manga" de camisa. A esse vício os estóicos nomeiam amplamente de amphibolia.

O decoro talvez seja a virtude menos operada pelos estóicos, e seguramente a mais criticada. Isso se deva talvez à centralidade da retórica no argumento (logos) e à questão da phantasía katalêtiptikê, que pressupõe não um grupo de pessoas como ouvinte, mas um ouvinte particular sensível ou não ao impacto do pneuma.

A correção, ou latinitade, como diziam os romanos, garante a precisão da língua como dialeto, isto é, como campo específico de palavras referentes a um conjunto mais amplo de fantasias. E foram tratadas analogicamente pelos vícios de barbarismo e solepcismo, como vimos acima, com relação à teoria dos corpos e dos imateriais.

Por fim, o ornato é o lugar do emprego das figuras. Os estóicos as dividem em figuras de pensamentos (dianoias) e figuras de palavras (lexeôs), pois como vimos, o pensamento é material e as proposições imateriais. Cabe ainda incluir no ornato o tropo e a figura, um sobre a matéria, outra sobre a proposição imaterial. O tropo, por exemplo: "ele é gordo como um porco" (um símile) em que há uma comparação entre a fantasia do porco e a fantasia implícita no dêitico imaterial. Ou a figura da elipse, "eu gosto de vocês e vocês, de mim".

Infelizmente, não temos preceitos retóricos que permitam delimitar as diferenças de emprego dessas categorias pela doutrina estóica propriamente dita. E muitas das questões retóricas acabam tiradas de um campo alheio ao estoicismo. Isso porque, como vimos, todo pensamento lógico estóico está estruturado na diferença entre corporal e incorporal. O fim dessa teologia implicou no fim não da retórica estóica, mas de todo o estoicismo.

Cícero traduz por visum a palavra fantasia, mas também a fantasia katalêptikê e a katalêpsis, identificado com a crítica da nova academia ao critério de verdade estóico (Acad. Prior. II 77 apud Sandbach:1971), define: Quale igitur visum? tum illum ita definisse: ex eo quod esset, sicut esset, impressum et signatum et effictum (O que seria afinal a visum? Pois foi assim que [Zenão] a definiu: uma impressão, decalcada e moldada.). Mais tarde Agostinho escreve, provando que a redução do termo fantasia havia sido mantida: tale scilicet visum comprehendendi et perpici posse, quale cum falso non haberet signa communia (É possível apreender e perceber um visum como objeto que não possui sinais comuns com algo falso [Contra academicos, III, 9 apud Sandbach:1971]).

 

 

 

 

[Texto apresentado no mini-simpósio Retórica da Imagem,

imagem da retórica, na ANPUH, 2006, em Florianópolis]

 

 

 

 

Notas e Referências Bibliográficas

 

 

março, 2008

 

 

 

 

 

Jorge Sallum é bacharel em história pela Universidade de São Paulo e desde 1999 é editor da Hedra. Atualmente, estuda a retórica no neoplatonismo e prepara dissertação de mestrado sobre o platônico Syrianus.