"A infância vem da eternidade.

Depois só a morte magnífica

— Destruição da mordaça:

 

E talvez já a tivesses entrevisto

Quando brincavas com o pião

Ou quando desmontaste o besouro".

 

Murilo Mendes, no poema Janela do Caos

 

 

 

2004

 

Estudo sobre o olfato recebe Nobel de medicina

da BBC, em Londres

 

Dois cientistas americanos foram escolhidos para receber o prêmio Nobel de medicina por desvendar os segredos do olfato humano. A forma como o cérebro reconhece e se recorda de milhares de odores diferentes há muito tempo intrigava os cientistas. Richard Axel, professor da Universidade de Columbia, e Linda Buck, do Centro de Pesquisa do Câncer Fred Hutchinson, em Seattle, resolveram o problema.

 

 

1999

 

Vovó parou de respirar perto das cinco da tarde de um dia alaranjado e lindo. No momento certo em que o fedor se tornou mais furioso. (Meu olfato decifrou todas as substâncias de que era feito. Ferrugem, mofo, azinhavre, lodo, barata, ingratidão. O cheiro branco-frio-fatal. Nenhuma revelação, nenhum aprendizado, entanto: meu tato não aprendeu o mistério da vida. Janelas abertas, a visão sufocada pela paisagem quieta da casa ao lado.) Seu coração ainda insistiu por alguns instantes, depois, submeteu-se, inconformado. Isso, vovó. Vai. Até o seu céu possível.

 

 

1998

 

No princípio, o fedor veio brando, minutos antes do derramamento cerebral, do pasmo, da ambulância. Acentuou-se um mês depois, quando a cadeira de rodas entrou pela porta da frente, as enfermeiras atrás.

Primeiro era um enxame rodeando a velha, rainha pálida, encarcerada num corpo flácido e humilhado pela paralisia do lado esquerdo. Vidros inteiros de Madeiras do Oriente eram despejados sobre ela, mantida na antiga pose à custa dos seus melhores vestidos, dignamente arrematada pelo colar de pérolas no pescoço.

Com o tempo foi esparramando-se pelos cantos, entornando-se pela escada, infestando esconderijos, fundos falsos, sótão e porão. Era uma casa com náuseas. Lavada e esfregada com fervor pelos empregados, sem a menor serventia. Nada livrava aquele visgo. Nada abatia a avó e sua inhaca. Aceitou com naturalidade viver a vida que virou castigo: a fedentina anunciava o milagre da salvação.

Quer brincar de saudade, vó?

Vovô viu a vulva. O rato roeu a rola do rei.

Não era assim que você me ensinava a ler.

Agora é.

Isso, vovó, tem razão.

Então me diga, rapidinho: pra que esse nariz tão grande, minha netinha?

Pra melhor te enxergar, vovozinha.

 

 

1994

 

A velha conferiu a quentura do forno, meteu lá dentro a forma com a massa do bolo e olhou para o relógio. Sorriu. Daqui a dez minutos em ponto a menina chegaria correndo, afogueada e com fome, as narinas na frente, seguindo o apelo que foi buscá-la no porão. Então, as duas se sentariam à mesa e comeriam, entre gentilezas e risadas.

Vó, pode cortar um pedaço bem grande pro anjo?

Claro, bem grande, sei como o anjo é guloso.

Hoje ele tá com muita fome, me disse.

Que mais ele disse?

Que os mosquitos têm 47 dentes. Que os camarões têm o coração alojado na cabeça. Que os gatos adoram cheiros de loções ou perfumes e é por isso que cheiram as flores. Que o quack de um pato não produz eco, e ninguém sabe por quê.

Nossa, o anjo é uma enciclopédia animal.

Tem mais. Com 65 semanas de idade, 80% das baratas tropeçam em cima de si mesmas. Os tropeços acontecem a cada dois passos. E elas podem viver nove dias sem a cabeça.

(A velha estremeceu.)

Lá vem você.

(Vovó odiava baratas.)

A menina ria muito.

Tá bom, vó, vou indo.

De volta para a sua brincadeira preferida. Conversar com um anjo de mármore, do seu tamanho, asas e mãos enormes, olhar vagaroso, guardado no porão. Entre os quadros dos fantasmas e almas penadas mais importantes da família.

Um pedaço pra mim, outro pra você, olha o aviãozinho.

O anjo abria a boca, engolia tudo.

Agora vamos voar.

Ela montava em suas costas e quando estavam bem alto, gritava, com olhos inacreditáveis:

Acho que estamos sobrevoando o Japão.

 

O dia ameaçava escurecer, a dama-da-noite curiosa invadia a sala da casa e via avó e neta tentando desvendar pequenos segredos.

Vó, onde começa a eternidade?

No domingo à tarde.

A menina ria, a avó delirava.

Assim atravessavam o jantar, brincando de trocar significados.

Vó, se o elefante se chamasse borboleta, ele voaria?

Voaria baixo, menina, bem baixinho.

Quero mais doce.

Comendo tanto doce assim, vai atrapalhar a sua fauna intestinal.

Eu quero, vó.

Você é quem sabe: sua alma, sua palma, sua capela dos olhos, sua pindoba.

Por onde andará Gregório, vovó?

Pelo mundo. Vivo, eu imagino.

E antes do sono a velha contaria histórias. A menina dormiria no seu regaço — Madeiras do Oriente — de onde fugiria para uma floresta feita de fronha e lençol enxaguados com patchuli.

 

Vovó e seu sorriso de erva-doce, seus rastros flutuando pela casa de pedra, suas flautas mágicas tresandando nos esconderijos, fundos falsos, sótão, porão. Podia ser o pão feito na hora ou os sachês nas gavetas. Ninguém escapava. Todo mundo preso pela ponta do nariz.

 

 

1991

 

Gregório, 34 anos, semianalfabeto, solteiro, solitário, negro, franzino, feio, um filhote de cruz-credo. Era o vigia da casa vazia ao lado da casa da avó. Todo dia, pela manhã, regava as plantas, abria as janelas, sentava-se na varanda e vigiava o dia. De vez em quando, fazia pequenos mandados para os vizinhos. Era de confiança e plantava margaridas no jardim.

Posso colher flores pra você no jardim do Gregório, vó?

Vá, mas sem emendar caminho. E traga-me um buquê bem convincente.

Bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer, que tanto você me olha, Gregório?

Reparando a menina bonita.

Foi quando ela reparou na minhoca enorme escura que ele tentava enfiar no buraco da calça, nunca tinha visto uma igual, encantou-se.

Deixa eu ver, Gregório.

O moço entusiasmou-se, a mão ganhou ligeireza, a minhoca empinou-se, dobrou de largura, dura.

Assim, Gregório, mexe mais. Mais.

Sai da frente, que isso espirra longe.

Ela gargalhava e batia palmas.

Gregório ofendeu-se.

Tá me gozando, é?

Tudo que é sério é amargo, aprendi com vovó.

Não entendo o que a menina diz.

(A minhoca pendurada, cabisbaixa.)

Se eu tivesse uma coisa assim entre as pernas, ia viver achando graça dela.

Um cheiro morno-aceso-sem-vergonha — mistura de camembert com água sanitária — violou meu olfato, esgarçou minha inocência. Nenhuma revelação, nenhum aprendizado, entanto.

 

 

 

No ano 2066, a menina vai fazer 80 anos. Vai ter festa. Filhos, netos, genros, noras, o resto da família e os amigos, ao seu redor. Vai apagar as velas do bolo e respirar contente os fogos de artifício que explodem no seu jardim. Sou feliz, vai decidir, enquanto olha para o anjo de mármore que enfeita a sala de jantar. Depois dos últimos abraços e beijos, vai subir as escadas em direção ao quarto. No penúltimo degrau, vai sentir um cheiro ruim, familiar. Está começando a minha hora, vai pensar. Vó, onde começa a eternidade? No domingo à tarde, ela vai rir. Gregório, lá vou eu. Nunca mais o vi. Nem de perto nem de longe nem nos homens com quem me deitei. Como era mesmo o seu rosto? As suas mãos? De que espécie eram os seus sonhos? A sua alma, de que cor? Não se lembra. Mas confesso que, volta e meia, entra ano sai ano, ainda me pego inventando o estrago que aquela minhoca preta faria no meio dos meus pelos louros.

 

 

 

 

 

 

 

 

Silvana Guimarães (Belo Horizonte/MG). Socióloga, escritora, redatora/revisora publicitária. Participou de algumas coletâneas, entre elas, duas que organizou: 29 de abril: o verso da violência (Patuá, 2015), Dedo de Moça — Uma Antologia das Escritoras Suicidas (Terracota, 2009) e Hiperconexões — Realidade Expandida Vol. 2 (Org. Luiz Bras, Patuá, 2014). Editora da Germina — Revista de Literatura & Arte, das Escritoras Suicidas e do site do escritor Rodrigo de Souza Leão. Vive em Belo Horizonte.

 

 

 

[imagens ©sirkka]