VASILHAME

para Irael

 

 

ingerindo licores e minérios. vasilhame de arenito com casca semiaberta. com uma memória insustentável. infestado de salamandras. à beira dos rugidos de ondas que saturam o intestino: devaneio de molusco. ríspido sabor de sarmento. ah! se o ouvissem de mais perto, estenderia seu pescoço, ressabiado. com todo o vício de um leopardo de granizo, ultrapassaria a cerca. vendaval silencioso que inicia a sua árdua corrida. cajado arrancado de alguma árvore de Sodoma. se o olhassem de mais perto ele seria refúgio, vielas descampadas, reminiscência dos anjos. sem nenhum roteiro pré-traçado. gruta de Santo Antônio — ou simplesmente salamandra legionária. o mais remoto dos estrondos. à mercê de toda redondeza. porto das cremações. província dos afogados.

 

 

 

 

 

 

PROMETEU

 

para Willer

 

 

narcísico e insuspeito, ele açoita a sua palavra como se esta lhe atirasse uma vítrea resistência. num ato quase insuperável, seu braço se inflama, crepita, e ele logo começa a escavar, a ruminar escombros, constelações inúmeras. se não fosse aquela artimanha de ser-outro: nuvem-querubim com verrugas de leão, orquídea ostentando uma fúria sacrossanta, algo de luciferina soturna amplidão de não-pertencimento, mal sonharia o rompimento das fímbrias, a iminência dos vulcões de sóis triturados; pois, rachadura que se extravasa além, ofuscada pela luz do ainda não-ser: ele se desvela

 

CINZA          FULGOR                 

 

BRANCURA DE ARESTA SELVAGEM

 

tal como inseto que se anelaria, se esfriasse entre sussurros e carvões, signomagnitude, porosidade despojada quando — no limite — se condensa. ouro ferroso. espiralada chuva. mar desconsolado com vestes de raposa. dançarino nas contrações insolúveis repercutindo algemas de prata. com cada linha que se exprime, eis um pouco de seu sangue vertido em arenosa insuficiência. sem insinuação de orgulho. som que se elabora, construindo um universo poroso de luas-falésias, budas e cristos soterrados, mártires e lívidos antros amorosos. com cada tecla formada por pinças tenebrosas / como tudo que é ar / dando-se ao luxo de arrastar um pouco de terra / já erodida / esculpida pelas mãos do tempo. sem que sejam arroladas todas as probabilidades, descem-lhe ainda as incógnitas que fulminam, flechas transparentes lançadas ao vazio. risco traçado de garganta luminosa. furacão de estrôncio que enrubesce em fração de segundos. na escama de sua face maldita, eis uma outra paisagem que se exprime. pois, que ao recordar de seu sonho, outros sonhos já o perseguem. dentro de seu ventre musculoso, o que lhe resta é apenas a asa de um navio, como quando na catástrofe só nos resta a própria vontade de autoconservação. porém, nem tudo se preserva. nuvens são carrancas no limiar de um portão. é uma ventania, uma plumagem que caminha no interior das casas. há instantes em que a palavra resseca. MAÇÃ INSOSSA. a paisagem é um caracol de fechadura de amor inviolável — o pássaro da angústia nas vísceras do mar. palavras que escapam pelos orifícios da pele. esta incessante pétala se sela com lágrimas. a água-viva desanuvia a sua caixa craniana. no meio dos seus cabelos flutuam lagostas. crescem os veleiros da costela. repentinamente cada hálito de palmeira se fere no seu ventre. em alvíssimas borrascas mastigam-se os miriápodes. basaltos exalam lábios de vinagre, veleiros marmóreos tresandam, corpos de verde inchaço se intumescem. centenas de veleiros escapam pela boca. o amargor é clarão de pássaros. cérebro borrifado pela lua imensa. sobre a mão, os pés e a nuca de um imenso caracol há ventres puxados pelas cordas ventosas. frias e pequenas, as bocas navegam. mastros incendiados, resvalam-se as montanhas: é o mármore que se cobre de um enxame de azulejos. árvore-cascata sugando o sangue do mar. barrento rescaldo de amianto. quando se ferve a alma, quando se venera a ampla cauda do leão e o ferro tempera a onda: a névoa não descansa. são miríades de gargantas, raios e paisagens nas pequenas portas que se abrem com toda a imensidade da lua. veleiro cravejando asas. lâmpada gotejando mártires. relâmpago vertendo-se em raízes. como se ele caminhasse para a soleira do templo. muros esbranquiçados lacrimejando as pálpebras daquele ser que se perde na caverna. fermento de sol correndo entre golfos de farelo. laços refletidos no ventre da palavra. e uma rajada fortíssima enquanto narcísico réptil ele se camufla: sol descansando na cabeça de uma formiga. como se morto, preso aos rochedos, Prometeu sob os ataques do abutre. escarro de Zeus. delícia sagrada. fortalezas-afluências. vórtices de tentáculos dourados. esgueirando-se aporia de lumes. axioma dos vermes. casa infestada de abutres. ventre que é caverna, caverna que é floresta, floresta que é Prometeu: se o sol é um imenso escoadouro, as vértebras celebram a rosa ígnea. a lamparina escoa pelo olho. a palavra galopa como uma ave. os pensamentos são plumas do vento.

 

O MAR ASPIRA PÁLPEBRAS DO CÉU

 

sob as faixas azuladas do silêncio, as lareiras se erguem na maresia. a vértebra-incógnita azula o éter. chovem réstias de cerdas — salitre que até provoca náusea. dentro dos estojos envidraçados, a multidão das serpentes espoliadas contam os últimos minutos antes da queda. ANTES DO INCÊNDIO DO MAR. sob as rubras centelhas da imensidade cercada de trevas. egrégoras racham as armaduras da pele. plumagem reconquistada, ele se supera, circunavega-se: vasto corpúsculo nas veias da palavra. uma luz corta a sua perna. uma cauda-hermafrodita o derruba. tantas vezes isso acontece. a palavra macrocéfala perde o sentido, a língua se engravida em verde bronze: estalam-se os ossos. um precioso arpão acolhe o rio na extremidade dos tremores. fúlgidas alargam-se as compotas. cortina de flâmulas oxidáveis. estrume de córregos no estômago de outro sonho. sua boca esvoaçante. cálida sombra de pilastra. estrela soterrada. trave vomitada. ferruginoso precipício meditando com os fósseis. munido de pólens e martelos. engenharia fúnebre de todas as aves. um último navio ainda esmorece no cais perto do palácio da presidência. ele vê o seu duplo sobrevoando, deslizando no meio dos prédios. nessa hora o sol exibe um pouco as suas sardas. a palavra continua a semear o clangor dos pássaros. eis por que ele é um coágulo, moléstia que se lança aos zumbidos do neurônio. pois no vazio, ele se despovoa, luxúria de cordas que se atraem e se repelem. música interrompida. obra reiniciada. bombeiro aparecendo na última hora da reza. pai nosso que estais no céu. se o túmulo abriga o corpo, a alma não sossega. as asas pútridas rodopiam pela última invocação. e se o pai morre é o seu anel de peixe que sobrevoa sem nenhum anjo que o console. navios do céu incineram o caminho. tudo já está cremado e se perde nos desvãos a mil léguas daqui. cada alma é bruma, serpente. FLOR-AÇO-CRISÁLIDA. cor de suave conjuração. orando sob a árvore, ele é uma esfera, um alaúde que se desmancha. a tarde e os murmúrios.      

 

 

 

 

 

 

 

AQUELE QUE EU FIZ DE MANHÃ

 

para Piva, Gustavo e Irael

 

 

 

sem nenhuma culpa

                A ALMA ESTIRADA 

NAS BRASAS

eu vou saindo do Embu das Artes

                    como quem suga a fotografia das pétalas

         eu vou colhendo uma lágrima do vento

                                                                  uma retina desenterrada  

                    as janelas deságuam as carcaças dos automóveis

         eu vou contornando uma larga rolha

                                        contraindo a gotícula do amante arco-íris

                os braços da clareira

                                                enrubescem

 diante do sortilégio

                         anjos de Omulu martelam os ossos de algumas abelhas

eu vou arrancando

                             as mãos

                                                                                      caindo das garrafas

   ferramentas se ferem

                         debaixo de meus cabelos

                                 debaixo de meus sonhos

                     os ladrilhos me costuram

                      até nas cordas 

                                                 abraçarei os alumínios

                                    o Latido

                          latejante

                                        rádio rico de almas

                   o figo da Índia

eu vou escorrendo

NA IMENSA FOGUEIRA

 

 

 

 

 

 

CRONOS

 

Glorificar o culto das imagens

(minha grande,

minha única, minha primitiva paixão).

Baudelaire

                       

                                                            seu olho

                                                                          é

                                                                              uma                                                   

                                                                     usina

                   NAS VASCULARES OPALAS           

       

                                                           ALFAIATE SEM PRESTÍGIO

                    ouro do gordo fantasma:

                                                                                                        antigo

                                                               simulacro que se debruça

                                                                                                      sobre as pequenas portas      

                                                 

                                            uma torrente em surdina,

uma árvore com o ventre apoiado

 

numa fragorosa porcelana 

                                                                                          

                    ONDE NADA PODERÁ SER DESCOLADO

enquanto 

                      esporas nos esteios da tirania  

                                                                                      arrebanham os frutos

                                                                   tal

                                                                                          qual uma alvorada

expiatória —

                                                                             vômitos

                                                                                                 de

                                                                      uma gaivota

 

                                                                                                (o sol

                                                            e a sua

                                                                                                       

       sombra

                desmesurada).

 

 

 

 

 

 

O OLHO DA MENINA MORTA

 

Luzes nas mandíbulas dos cães.

Fachos ultrapassando o tempo. O túnel contra as marés e os túmulos.

Numa arraia de trinta polegadas se desdobrava o dorso de seu corpo:

Luzes nas mandíbulas dos cães.

Fachos avermelhando o cu das marionetes sonolentas.

"Nosso sangue não derrete mais"

No outono de seus íntimos resquícios grita uma mãe-estrela.

(Famélica nave: seu ventríloquo estrugindo ervas.)

Você poderá me levar para o deserto? Em quem você apostará na luta?

Uma ventania derrubava as árvores do meu sonho.

"Eu já dizia para você. Eles não queriam nos escutar".

Como era a cor de suas lágrimas?

Como era o sábio com lóbulos de rósea putrefação?

Terrosanuvemmanchada com véus de ouro.

Negrorumor de suas caudassonolentas.

ELA ERA UMA BOA ENFERMEIRA

MAS ELE NÃO QUERIA QUE EU RESPIRASSE

A ESTÁTUA SE ILUMINOU ATRÁS DA FERRUGEM DE SEU VESTIDO

ATRÁS DA FERRUGEM DE SEU VESTIDO UMA CAUDA FLÁCIDA UMA NUVEM ENGOLIU O SEU ROSTO.

AH! CONDOLÊNCIAS-TÚNEIS-LUZES NAS MANDÍBULAS DOS CÃES.

VOCÊ PODERÁ ME LEVAR PARA O DESERTO? EM QUEM VOCÊ APOSTARÁ NA LUTA?

 

 

[ Do livro Naufrágios ]

 

 

[imagens © roel wijnants]

 

 
 
 

Chiu Yi Chih nasceu em Taipei, capital de Taiwan (1982). É chinês brasileiro naturalizado. Junto com a sua família morou em Hong Kong, China e Macau. Aos doze anos, começou a escrever seus poemas. Na sua adolescência, estudou Poesia e Xamanismo com o poeta Roberto Piva num sótão improvisado na FUNARTE. Formou-se em Letras Clássicas com habilitações em Língua e Literatura (Grego-Português) na USP. Após a sua graduação, ingressou no curso de mestrado em Filosofia Antiga (USP). Em 2007, mudou-se para Embu das Artes. No distanciamento em relação à metrópole começou a sua experiência visionária. É nessa época que escreve os poemas do seu livro Naufrágios. Em 2008, foi premiado em 2º lugar no III Festival de Literatura da Letras da USP – categoria Poesia. Entre 2008 e 2009, publicou alguns poemas na revista Cronópios, Meio-tom, Casulo, Ounão, Zunái. Ainda em 2009, tornou-se mestre em Filosofia Antiga com a dissertação "A eudaimonia na pólis excelente de Aristóteles". Em abril de 2010, integrou junto com os escritores embuenses a antologia Poética das Artes. Realizou comunicações e palestras na USP e UNICAMP. Atualmente, trabalha como professor de filosofia, poeta e escritor. Em breve, lançará o seu livro de poemas Naufrágios (Editora Multifoco), na mesma coleção que publicou poetas como Marcelo Ariel, José Geraldo Neres, Claudio Daniel e Virna Teixeira.