LUMESSÊNCIA

 

 

que pobres

todas

galáxias

        que nula

 toda

essência

sem o

  AMOR

cujo brilho

faz flórea

toda

existência

 

 

 

 

 

 

RELÂMPAGO DE JASPE

 

 

I

 

o corpo

rosa da mulher

 

(do rosto morno

aos pés em flash

com o ondulado

ventre elétrico

e o púbis

nu: os volts

em vórtice)

 

ao tato em transe

impõe seu choque

 

 

 

II

 

 

longo estrondo

de sonhos

                           mitos

e símbolos

que à treva do

homem

                           revela o infinito

 

 

 

 

 

 

ESTANDARTE

 

 

teus olhos tremulam

no topo do rosto

 

a luz

é o alísio

 

os brilhos

um hino

 

(louvor

à cor)

 

até quando

hasteias

 

— já no leito

cansada —

 

essa verde bandeira

sob as pálpebras

 

 

 

 

 

 

OBRA EM RUBRO

 

 

o crepúsculo escreve

sua opus

 

que à íris

profere

em voz alta

 

 

rolam rubras

palavras

 

verbos

rosa-amarelos

 

no vazio

violáceo

de Porto

Alegre

 

 

obra-prima

divina

entre os dedos

da treva

 

que por medo

do fogo

fecha a

página

 

 

 

 

 

STRIPTREVAS

 

 

linda em lua

e couro negro     

faz pole dance

no pinheiro

 

depois despe

as névoas

e o

seio

surge entre

piercings

de estrelas

 

 

 

 

 

ANTOLOGIA

 

 

assim como espera

da flor

a esfera

triunfal do fruto

 

o mundo empurra

o eu

do poeta

para

o abismo

 

e vós

que mordeis

a polpa

macia

nem mesmo

sabeis

que o verso

é um compêndio

de quedas e gritos

 

 

 

 

 

KITSCH

 

 

se teus poemas

posam

para foto

 

ou

buscam

o brilho

do elogio

 

o ulular da turba

 

o prêmio

em dinheiro

 

ri

e depois

morre

 

ninguém

(no além)

virá

pedir

teu autógrafo

 

 

 

 

 

 

METAFÍSICOS

 

 

enquanto fetos

viram flores

e homens murcham

e morrem

nós tentamos deter

o movimento veloz

e violento da vida

criando histórias de amor

obras de arte e

tratados

de filosofia

 

 

 

 

 

 

FUNERAL COTIDIANO

 

 

são 24

as covas

que cavo

no solo de sal

& ossos

do quarto

 

 e sobre cada

 cadáver meu

 que deponho

 ergo a lápide

 de um sonho

 

 

 

 

 

RESURREXIT

 

 

como um cristo

morto

no gólgota

do ócio

eu desço

à página

 

e aqui

no escuro

branco inerte

e mudo

jazo até

que o verso

cali-

grafe

a páscoa

 

 

 

 

 

VIVER

 

 

não mais

gemer

de lembrança

e de medo

 

sequer

tremer

de saudade

e traído

 

nem inchar

de sonho

ou secar

de desejo

 

(sem amor

sem trabalho

sem amigos)

 

mas buscar

o cômoro alto

 

e

sair

do curto

cubículo 

 

onde o idílio

do sol

e a alegria

da vida

são frutos

moles de mofo

que a boca do mal

remorde e mastiga

 

 

 

 

 

DESPERTAR

 

 

o brinde

da vida

aflora em festa

 

já borbulha

na borda 

da manhã que começa

 

tim-tim, minha carne:

reacorda!

 

tim-tim, minha alma:

fica ébria!

 

[imagens ©muriel de seze]

 

 

 

 

Adriano Wintter. Nasceu e reside em Porto Alegre/RS. Foi um dos vencedores do FEMUP 2010. Edita o blogue http://adrianowintter.wordpress.com.

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