Eu do avesso

 

 

Este meu lado de dentro não combina com meu lado de fora. Nasci na contramão da certeza. Por isso, um dia um amigo disse que havia outra mulher dentro de mim. Eu respondi distraída: "É que você vê meu miolo". Ele riu e não disse mais nada. Passaram anos, este amigo atravessou o oceano, mas aquele fio de conversa virou uma meada na minha cabeça, onde tudo cresce. Então, descobri em mim uma mulher pacífica e outra tiririca de ruim. Uma angelical, outra que rebola. Uma que se aquieta num canto, outra que dança rumba. Uma capaz de viver de dia, outra que só vive à noite. E pensei: "Mulher é como a lua. Muda de fase e quando a gente está quase se acostumando com ela, fica clarinha, clarinha ou escura de arrepiar".

 

Por isso, os que se chegam a mim estranham o olho gateado que faísca de repente e quando pensam que vou avançar, canto música de ciranda. Eu sou uma menininha que cresce em três tempos se me provocarem. Eu tenho um pé na loucura. Um não, os dois. No dia em que um cachorro me mordeu retribuí a gentileza, ele saiu ganindo de dar dó. Mas também sei miar pedindo colo e enrosco na perna do dono, porque meu lado de dentro não combina com meu lado de fora. Vivo uma vidinha espremida entre dois atos, controvertida e sem entregar de bandeja meus humores.

 

Quem gostar de mim que me adivinhe, cansei de ser camarada. Tem gente que acha que camarada é besta. Hoje amarro minha sensibilidade num pavio, bem curto. E quando saio na porrada, até os malandros me respeitam. Descobri que tenho corpo fechado. Minha loucura é meu escudo e minha fraqueza. Minha loucura é minha fantasia.

 

 

 

 

 

Sobre a fala

 

 

Gosto de lembrar que as mulheres inventaram a fala. Dizem que na pré-história, enquanto os homens iam à caça, elas ficavam nas cavernas com as crianças e, assim, criaram a linguagem que nos diferencia de todas as outras espécies. Como se vê, a eloquência  das mulheres nasceu do mais autêntico tatibitate, do som se descolando do gesto.

 

Por isso, senhores, há uma causa antropológica para o fato de utilizarmos cerca de três mil palavras para dizer a mesma coisa que vocês diriam com mil e quinhentas. A fala nasceu muito antes da escrita, muito antes que qualquer animal fosse desenhado nas grutas de Lascaux, muito antes dos hieróglifos. Acho mesmo que a fala nasceu da tentativa de uma canção de ninar, simples assim, de uma canção de ninar.

 

 

 

 

 

Vocabulário em transe  

 

 

Quero falar chinês, javanês, árabe, gaulês, português arcaico, todas as línguas vivas ou mortas. Encontrar vocabulários não é para qualquer um, há pulsações. Preciso de um exercício dadaísta para descobrir sentidos obscuros. Quero todas as estéticas e as linguagens, a poesia e a prosa, o sentido arrancado à força dos esconderijos para compreender, afinal, o que vai dentro de mim, já que não posso decifrar o outro.

 

Há sentimentos maiores que as frases e as sílabas, há sentimentos que não cabem em parágrafos, há sentimentos que extrapolam as letras, corrompem vírgulas, atropelam pontos. Há sentimentos para os quais teríamos que inventar códigos impossíveis, destes que riem e choram.  Seu peso viola a lógica da contenção e do transbordamento.

 

Sinto-me tão ocidental quando tento me exprimir com palavras, que rio de mim como se fosse um cão a perseguir o próprio rabo, quando ele faz a dança dos dervixes. Sentir é um transe. É diferente de decifrar emoções em código e repetir: amor âmago amordaçado ausente antigo antagônico êxtase errante eletricidade erótica coruscante cristal cravo desejo ardente cítara sutil afresco hiato incandescente sem saída.

 

Sentir é como ver o mar e uma entidade pungente naquela engenhosidade líquida. Impraticável mecânica. Ninguém consegue tocá-la, parar seu movimento, quem dirá... dizê-la. Querem saber? O sentimento é como o mar, nos lambe e devora, como a língua de um grande deus insondável e quântico.

 

 

 

 

 

Feminilidades

 

 

Hoje vou me dedicar às coisas que fazemos sozinhas, aquelas que pedem quietude e delicadeza. Nada muito grandioso, apesar o pulsar dos pequenos gestos que não exigem esforço, não alteram minha respiração nem meus batimentos cardíacos. Enjoei dos riscos, das perguntas sem respostas, das incertezas que dependem de um sim, da afirmação que abre espaços inseguros, porque na hora H as ondas se movem e a vida não cabe na garrafa. A vida é um licor que transborda.

 

Então, vou fazer aquelas coisas que não exigem nada, que se completam em si mesmas, atos tão simples como enfiar as contas de um colar, calçar as meias, apreciar objetos, olhar a chuva, acender incensos, sentir a náusea de um perfume antigo, guardar a caixinha de sândalo, escrever palavras que pedem passagem, beber o chá, contar as folhas no fundo da xícara, desprezar sortilégios, rir da própria ingenuidade, ignorar o poder, ser livre para pensar,  dançar rumba, vestir-me como bailarina, subverter  o pas-de-deux, transgredir as horas, esquecer-me de todos os poemas escritos e de todos os que ainda vou escrever.

 

Hoje quero comer morangos, tingir a língua, piscar o olho para um ser imaginário, molhar a boca com o vinho apropriado aos dias frios, lembrar que vi abelhas enlouquecidas, divagar sem me prender ao pensamento, repassar álbuns de retratos, me ver criança, ouvir pela décima vez a mesma música, andar descalça, fazer apenas uma oração, conjurar os anjos, brincar com as salamandras das chamas das velas, colocar as mãos sobre o fogo, viver a fração do tempo como um beija-flor na proeza do voo. Nesta noite, quero me dedicar ao extremo ato das coisas simples, numa outra espécie de transbordamento, a devoção a cada hora vivida, o ritual dos tolos, o ritual dos sábios. Hoje parei o futuro.

 

 

 

 

 

Sentimentos mínimos

 

 

As mulheres dão atenção a detalhes, a coisinhas.  A agulhas, linhas, botões, caixas, miçangas. Será porque nas cavernas os homens saíam para caçar, ver  o mundo, e ficávamos ali coletando pedrinhas, ossinhos, sementes? Ao mesmo tempo, a visão aparente de pouco alcance nos dá concentração para a imensa paisagem interior, onde se estendem afetos, o amor como um lençol gigante, a estrada da emoção sem fim. Enquanto enfiamos miçangas na linha, os pensamentos voam. Mergulhamos na interioridade nestes momentos aparentemente ingênuos e, de certa forma, artesanais. Para mim o artesanato é do pensamento, assim como a escrita que se destina ao mundo, mas primeiro, antes de tudo, é um enfiar de letrinhas, como contas e miçangas no papel em branco. Às vezes faço colares de pensamentos. Pequenos pensamentos, aparentemente sem importância, mas sinto cada pedrinha que se move dentro de mim e revelo as impressões aos poucos. O atrito é muito delicado.

 

 

 

 

 

Sentimentos máximos

 

 

Era a primeira vez que a tristeza adquiria um corpo e escorregava como areia dentro da ampulheta. A tristeza era uma caixa guardando pequenos objetos, botões, agulhas, linhas. Se me virasse para a direita, eles se movimentavam para este lado. Se me virasse para a esquerda, eles também se deslocavam. Só não sabia como inverter o processo, o que faria para preencher o vazio quando a areia terminasse. Porque aí já não seria uma questão de direita ou esquerda. Seria uma questão de manter-me em pé, em ângulo de gravidade. Antes, a angústia era uma nuvem, um fantasma que pairava como o éter. Era a primeira vez que o sentimento adquiria um corpo, um estado sólido. Acho que a tristeza evoluiu.

 

 

 

 

 

A geografia do silêncio em meia dúzia de palavras

 

 

Agora é o silêncio. Depois de garimpar palavras, revirar o texto, tecer o verbo, desfolhar os significados como os girassóis que viram a cabeça dos homens e as rosas puritanas que se dão às esposas, loucas por naturezas mortas.

 

Agora é o silêncio. Depois de acertar o alvo, ferir com a seta, lamber a ferida, olhar a cicatriz como quem vê o porto e o navio partindo onde o mar desmaiou, grande como o amor na tarde repentina.

 

Há sentimentos assim, intensos como a visão de Gauguin, as mulheres do Taiti, a eloquência de Rimbaud, a emoção de Pessoa percorrendo o Tejo e as águas do desejo derramadas na terra, onde só ficam as lembranças quietas.

 

Aqui e ali eclodem as sementes, mas nem tudo cresce. Seleção botânica e natural ou a escolha injusta dos que pisam os botões no campo das ternuras despetaladas.

Agora é o silêncio. A lei que vale ouro é sem palavras e a prata dos meus versos é o que ninguém decifra. Criptografia sem chave, hieróglifo empoeirado, inscrição rupestre onde os amantes cavam a arqueologia do afeto, tesouro de Ísis, a que foi além do Nilo e do Saara. Geografia de emoções, histórias, o silêncio entre as lendas da mulher esfinge.

 

O amor, meu rei, sempre me devora.

 

 

 

 

 

1 minuto de imaginação

 

 

Ela fazia uma aula prática: "Como desenhar nas nuvens".

 

Desenhar não é bem a palavra, talvez seja "desdesenhar". Porque é difícil construir com o vento, criar um cavalo com as patas sopradas.

 

Então, Ana virou a ideia do avesso: "Melhor desconstruir um animal, que se transforma em planta, uma planta aquática, com as extremidades se alongando como água-viva, inflável".

 

O exercício de desenhar nas nuvens é coisa da infância de Ana. Reminiscências, palavra bonita como cintilância ou luminescência que parece a junção das duas coisas. Só parece.

 

Ana pensou que é bonito escrever. Tão bonito quanto olhar as nuvens que se "desdesenham." Escrever e imaginar tornam as emoções flexíveis, elas se movem quando tocadas por uma leveza insuspeitada, destas que nascem de um sentido qualquer de liberdade.

 

A liberdade pode ser imensa ou uma coisinha assim, à toa. Como imaginar desenhos e palavras, percebendo que um projeto de mundo cabe no instante.

 

 

 

 

 

Paixão em origami

(uma carta, quase um blues)

 

 

Não fuja baby, há muita história pra rolar, geografias a percorrer, uma aventura a dois tem um grau de intimidade que nos tira do chão e nos coloca num espaço inimaginado, onde não há razão, só coração, órgão máximo da delicadeza, vaso onde nascem flores de origami que moldamos entre os dedos, fazendo carícias, descobrindo formas de amar.

 

Quando a aventura é grande e a viagem longa, entregamos as identidades e os RGs, vamos em busca daqueles outros que habitam em nós, embora nem sonhássemos com eles na vizinhança.

 

Você tirou algumas outras de dentro de mim, aquelas que dançam rumba, vaporizam perfume no ar, celebram a vida, pelo fato de serem carne que se entrega e arrepia, muito além de um osso duro de roer.

 

Havia tantas lá dentro. Escondidas entre os véus, me espreitando como odaliscas que me habitavam e eu nem sabia. Ou havia esquecido, entre um passo de dança e a necessidade urgente de voltar pra casa, colocando uma a uma em disciplinado silêncio, sem música para não despertar seus sentidos.

 

Mas estes desdobramentos, estas vozes, estas mulheres teimam sempre em acordar do seu sono profundo, nascidas das memórias que as fazem únicas, herdeiras da aventura de amar. Penélopes e Alices, Helenas e Yokos sopram em meus ouvidos uma canção de coragem, um ato de ternura que irrompe como um animal, entre dengos, sobressaltos e murmúrios. Elas permanecem ali, por um tempo, inspirando-me histórias de Sherazade, num plano de criatividade ao qual dou voz, neste instante, narrando a mesma história, que parece sem fim...

 

Era uma vez tantas vezes.

 

Então, não fuja baby. Há muita história pra rolar, acontecimentos que não se adivinham. Quando nos despimos pra valer há um encontro indizível, uma possibilidade de descobertas que só se fazem a dois, antes que o dia amanheça e a gente pegue o RG como se fossemos um, embora tenhamos sido tantos outros que emergem, se escondem, viajam até as estrelas, desembarcam  no quarto.

 

Até a próxima vez, quando o pássaro nos acordar do mistério.

 

 

 

 

 

A mais líquida das mulheres

 

Era tudo muito forte. Havia a confluência do Ganges e do Nilo, do Amazonas e do Yangtzé, o maior rio da China. Todos corriam para o mar. Àquela hora era ela a mais líquida das mulheres, aquela que verte o choro e ainda tem os líquens e os orvalhos. Esta natureza de água decerto era um risco no mundo sem muitas fontes era um contraste. Tudo muito seco e inóspito, tudo ansiava por água que seria sorvida por uma sede de terra antiga. Porque havia os desertos humanos.

 

Parecia não ter fim aquela sede do mundo e a mulher-água tinha muitos afluentes: ternura e graça, poesia e maciez na língua, oásis e plantas irrigadas. Mas assim que toda a verve líquida desejava correr em fluxo contínuo, rochas obrigavam a água a estancar e a se repartir, perdendo força, transformando-se de novo em pequenos lagos isolados. A natureza seguia seu curso em movimentos,  às vezes contrariando a si mesma.  Estancava quando queria puxar, até que, aqui e ali, uma nova reunião das águas se transformava numa cascata que arrebentava as emoções sutis. A ternura e a graça, a poesia e a maciez da língua, os oásis mais puros e as plantas irrigadas, tudo exposto à tempestade.

 

Quando chegava neste ponto, para não sucumbir à brutalidade a mulher-água se recolhia e deixava-se levar pelo rio interior onde a emoção contínua transformava-se num pensamento quase ordenado. Havia palavras para colocar pingos nos is, gotas na chuva, moléculas no oceano. Vistas assim como moléculas que se juntam num determinado instante, as águas não eram tão assustadoras, porque a água, como se sabe, tem duas naturezas: uma de riacho doce, um convite de Oxum, outra de onda marítima de arrebentar diques, cidades e civilizações.

 

Quando a onda gigante se insinua sobre os portos, as embarcações batem seus cascos duros. Um atrito de arrebentação, impacto perigoso como as tempestades tropicais, produzidas por elementais que chamam ventos e os comandam por tempo indeterminado. Pode durar dias ou anos, nunca se sabe.

 

Na mitologia dos sentimentos há um balé exigente dançado na ponta dos pés, quando os excessos são recolhidos em garrafas, destas que se lançam ao mar para que se cumpram os acasos. Trata-se de um rito de passagem, ninguém sabe do que para que, mas há transformações. Algumas mensagens nunca chegam, batem nas rochas e se transformam em palavras de vidro moído, estilhaços que cortam deixando cicatrizes finas, quase imperceptíveis depois que secam ao sol.

 

Mas algumas mensagens chegam como códigos de sobrevivência que avançam pelos sete mares, contornam as ilhas, ludibriam a besta e seguem levadas pela casualidade até uma praia mansa, onde toda angústia é espuma. Ninguém imagina que a espuma, que carrega algas e conchas, passou por perigos que têm a ver com o desejo de fluxo, quando as águas começam a formar ondas, redemoinhos, com a força centrípeta puxando e as possibilidades de flutuar parecendo impossíveis.

 

A mulher-água, com toda sua emoção, depois que corre junto ao Ganges e ao Nilo, encontra a resistência das montanhas, se revolta, se reparte para seguir seu curso, cai em cascata, despenca em abismo, reúne outra vez os afluentes, ruma para o oceano, provoca as ondinas, dança o balé das ninfas, bebe o sangue das bestas, apazigua-se em espuma, quebra-se num remanso de praia onde se deita exausta.

 

Sua natureza é de onda e quando as rochas a recolhem para ficar ali, ela já partiu, fazendo o caminho de volta ao Ganges e ao Nilo para providenciar a semeadura dos sentimentos sobre a terra inóspita, os desertos humanos. Assim, apesar de todos os obstáculos, fertiliza para sempre e sempre o renascimento, líquido como a criação.

 

 

 

 

 

Sutil

 

 

Ela tinha um coração de pássaro que se sobressaltava. Talvez não fosse o coração, mas o ouvido, que se alarmava com o toque do telefone, os passos dos insetos, o ronronar do gato na cozinha, enquanto ela ficava no quarto, num falso silêncio. Porque na sua cabeça os sons não paravam nunca, sempre havia um trecho do "Bolero de Ravel," uma música de Tom Waits, o refrão de "Quizás, Quizás, Quizás".

 

Em dias de chuva, as goteiras pareciam agulha alinhavando a água, ruído fino como se a costura nas moléculas de H²O resultassem num grito de VIDA, uma emergência na qual ela estava tão mergulhada que tudo se redimensionava. Os barulhos dobravam, o tato ardia, a fala estendia-se por um vocabulário desconhecido. Porque há palavras que se desconhecem, misteriosas como o éter que não tem forma, mas existe.

 

Aquilo que dependia do olhar era tão grandioso quanto o que se ouvia. Tudo fazia parte do redimensionamento da vida. Porque ela tinha um coração de pássaro que se impressionava enormemente e também se deslumbrava como quem vê taças de cristal em tempos de vidro, selos secretos em tempos sem carta. Quando chovia, acontecia este exagero e um revoar da memória. Ruídos e imagens da infância, tudo tão datado que todos os poemas nasciam em 1960.

 

Assim, suscetível, era melhor nem sair de casa. Desistia dos encontros e dos contatos, das conversas banais nos botequins hilários.

 

Nestes dias, esperava a delicadeza passar para não assustar as pessoas e se dedicava a imagens de cristal, gotas de chuva, ecos de conversas, crianças numa ciranda, o peixe no aquário, um poema de 1960. A sutileza por sua conta e risco.

 

 

 

 

 

Viagens de Ana 

 

Dentro de Ana há muitas paisagens. Às vezes ela atravessa desertos, mergulha em oceanos, deita em nuvens de algodão. Nas paisagens há rostos conhecidos ou uma multidão de desconhecidos a serem descobertos. Não fosse o milagre do inusitado, a vida teria menos emoção, menos vibração, Ana estaria encolhida à condição do senso comum, onde tudo é igual. Ela prefere aventurar-se, ainda que aparentemente não esteja em movimento. Seu corpo permanece estático, mas seu espírito entra e sai do futuro. As paisagens a conduzem à vida nômade onde percorre estradas que só ela avista. Elas mostram como sobreviver às intempéries e Ana as experimenta, ainda que ninguém o saiba.

 

 

 

 

 

Oceânica

 

Se eu tivesse juízo, não pensava mais em amor. Estive por aqui de amor, ó.  Mas eu gosto tanto. Sou riquíssima em perdas e delicadezas, sei que não sou a única, mas rios delas correm dentro de mim. A nascente dos sentimentos, apesar de tudo, não seca. E na foz das palavras quantos versos, quantos cantos, quantos encantos, quantos sussurros. 


Mas, como dizia, se eu tivesse juízo, não pensava mais em amor. Pensava numa vida prática, tudo nos seus lugares, sem esperanças nem ilusões. Apenas a vida, a vida como um riachinho, onde a gente afunda os pés, só até os tornozelos.  
Mas sempre quis o oceano, navego muitas vezes sem farol, a esmo, correndo o risco das águas profundas. Nasci marinheira, sabe? Marinheira e poeta. Na palavra, e só nela, encontrei a redenção das delicadezas doídas e as tatuagens diáfanas do meu espírito sempre inquieto.

 

 

[Do livro Todas as Mulheres em Mim. Londrina: Projeto Tríade, Atrito Art/Kan Editora, 2010]

 

 

 

 

 

Profecia

 

 

quando nasci

o anjo Gabriel

veio anunciar que um dia

eu daria à solidão

do seu desejo

o cálice cálido de um beijo

derramando em sua boca

o mel pagão da poesia

 

 

 

 

 

Sabedoria quase chinesa

 

 

se alguém não te alimenta

inventa

uma manhã de sol

fruta fresca

chá de hortelã

para despertar a alma

com calma

que o dia apena começa

e o amor não combina com pressa

 

 

 

 

 

Todas as mulheres em mim

 

 

a cada vez que ele volta

abro meus braços de rio

serpente do Nilo

Alice no espelho

estrela cadente

gata no cio

sereia de Ulisses

Penélope nua

queria tanto ser sua

 

 

 

[Do livro Sensível Desafio. Londrina: Atrito Art/Kan Editora, 2006]

 

 

 

 

De Maria para João



Preciso te encontrar agora, assim mesmo mexida, com a terra revolvida, os pilares tortos, um abalo sísmico de 7 graus na escala Richter para ver como se comportam nossas defesas diante da quase tragédia, do dramalhão de novela, da história de amor que tem seu enredo, tão feliz quanto patético. Uma briga assim não há de passar em branco. Retornei aos bilhetes, alguns mal escritos no ímpeto de salvar a pátria, a pátria de um amor que você nem chama de amor que é para ocultar o nome do que não pode ser dito em vão.


Amor nesta perspectiva deve ser um deus irado, destes que não perdoam, que pedem uma tranqüilidade responsável, quando somos todos irresponsáveis, à beira de um ataque de nervos, provando nossa humanidade. Nas cheias dos meus olhos, lágrimas dançam um solo de piano, às vezes de sax pungente. Depois de superar o impulso de amaldiçoar memórias, coloco na xícara um pouco mais de açúcar e bebo o afeto destes dias atravessados. Engulo um ódio adoçante.


Às vezes, sou tão imediatista que devoro calendários, quero adivinhar o futuro, saber se há um porto depois dos naufrágios, um salva-vidas, uma esperança, um movimento leve como as borboletas, um local para repousar e deixar que o vento espalhe as dúvidas como grãos de areia, tão ínfimos quanto penetrantes.

Você faz de conta que não sente. Desfila um olhar blasé como aquele seu jeans despojado, um toque de eterna juventude onde a maturidade faz vincos, eu te aliso, aliso e te adivinho absorto em si mesmo, sempre ensimesmado pelas mesmas revoltas, doçuras e danação de amor, aquele que não se entrega e põe no ar os pássaros da ilusão que me tiram do sério. Estaremos juntos de novo? Ou viramos para sempre a esquina e deixamos os ecos dos passos dos que perderam o paraíso?

 

 

 

[Inédito]

 

[imagens ©youra pechkin]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Célia Musilli é jornalista, cronista e poeta. Autora de Sensível desafio (Londrina: Atrito Art, 2006) e Todas as mulheres em mim (Londrina: Atrito Art/Kan Editora, 2010), escreve para a Folha de Londrina, faz Mestrado em Literatura na Unicamp. Gosta de livros, mar, viagens, estrelas e gatos, nem sempre nessa ordem.