a visita

 

 

Carlos, não me venha aqui agora. Já sabes

que tuas visitas têm sido mais constantes do que

o normal. Nunca fui tão perturbado por ninguém

e nunca por alguém tão perturbador. Desconfio

que as danças invísives do anoitecer desta cidade,

de acordar nesta rua, de perceber tua testa imprevisível

num desenho de tempestade, desconfio que todo inexplicável

seja neto dessa tua insistência.

 

Por que insistes, Carlos? por que és tão pesado?

pois tuas mãos aliviam-se ao cutucar-me o espírito? pois és rei

e fazes tudo sem pensar? ou pois sabes que preciso? que preciso

e caminho muito só para alguém de minha idade?

 

Já que fazes questão, Carlos, e eu não desafio as questões

de quem traz todas as chaves, explique-me por que minha solidão sorri

com as piadas frágeis de teu desespero. Explique-me também por que

só me alimento de sonhos com talheres de borracha. Explique-me,

tu que afastas todas as pedras, explique-me por que nosso medo

é mais barulhento que uma derrota.

 

As palavras levantam-se e vão embora, pouco a pouco voltando

pra onde preferem estar: perto de ti. As luzes da casa, infelizes como

sempre, observam a elegância do teu gesto de despedida seco, necessário,

amoroso. Quando tu te levantas desaparecendo, a saudade de tua detestável

e invencível presença me constrói novos delírios. E te aguardo, Carlos,

com todo o meu receio, enquanto meus dedos revivem

e meu tempo convulsa, a tristeza confortável de saber que tu nem

andas tão longe. Estás sempre por aqui, vital, maior que o mundo,

dentro da mente furiosa em que ocupas teu trono de tinta.

 

 

 

 

pesadelo com drummond

 

 

vou te contar a história do leiteiro

 

a história do leiteiro não é a história do leiteiro. nunca foi.

carlos quis nos fazer acreditar que alexandre/joão/pedro

o leiteiro

era dono de sua própria história.

 

não é verdade não é a história do leiteiro

a história do leiteiro não era a morte

a tal morte do leiteiro sua história não era a morte do leiteiro

era a morte verbal

dimensionada e travessada no texto

 

sim, eu vou te contar a história do leiteiro a morte do leiteiro

quando a coisa espessa escorre e a aurora brilha seu terceiro tom

vou te contar a história do leiteiro então

 

aquele leiteiro

brincando com as garrafas de leite

brincando com as garrafas de sangue

o leiteiro sereno e conformado aquele estúpido e lesado

não era um leiteiro

 

o leiteiro jamais foi leiteiro

o leiteiro jamais foi leite (língua            gosto)

o leiteiro sequer sabia o que trazia na garrafa do olho

 

o leiteiro sim o verdadeiro leiteiro

leve e sutil como carlos dizia

escreveu poemas que ninguém lia

e compôs sem a pressa da profissão

cheiros e gostos brancos (    livres   profusos   )

 

o leiteiro ah maldito leiteiro

retrô   cedeu   verde e preto e deformado

num mês de círculos confusos

leiteiro esperto morto leiteiro espanto

virado do avesso

retrovirado do verso

 

leiteiro leiteiro

ah, leiteiro leiteiro leiteiro leiteiro

sim, leitouro

l e i t e r r o

 

a história do leiteiro

era a última história sem luz.

 

 

(Homenagem ao icônico "A Morte do Leiteiro", de Carlos Drummond de Andrade, poema dedicado a Cyro Novaes)

 

   

 

 

 

outubro, 2012

 

 

 

 

 

Gabriel Resende Santos

Na Germina

Poemas