Professora de física, fotógrafa, jornalista; leitora voraz, livreira e apaixonada por livros. Escritora. É difícil abarcar num único rótulo a figura da carioca Daniela Lima, que faz sua estreia como romancista no próximo dia 3 de março, quando lança Anatomia (Rio de Janeiro: Multifoco, 2012, 87 págs), livro de fragmentos sobre a vida de Laetitia Casta, uma cardiologista que sofre de depressão e se casa com seu psiquiatra, Paim, a quem trai com Badi, um jovem residente. Na obra, o triângulo amoroso é esmiuçado — num meticuloso exame digno de uma aula de medicina — e narrado sem pudores, com altas doses de erotismo (e de crueza).

 

Essa estreia, ressalte-se, é como romancista. Isso porque Daniela é uma jovem escritora já premiada, publicada em coletâneas e revistas da área e festejada há quase uma década por leitores, críticos e aficcionados por literatura na internet, onde mantém um blog que chega à marca de 3.000 acessos diários [ www.danielalima.com ].

 

Com a maturidade, contudo, a escritora conta que trocou o exercício livre dos posts literários pela narrativa densa e tensa do seu romance inaugural. Talvez essa confluência de fatores e de talentos ajude a explicar como um romance escrito em sofisticado fluxo de consciência já chegue às livrarias elogiado pela crítica e chancelado por mais de uma editora, conseguindo agradar dos leitores mais eruditos aos mais casuais — coincidência rara. Mas conciliar interesses diversos, vivificando-os em narrativas "surpreendentes como a própria vida" parece ser um talento natural da romancista, cujo segundo livro, adianta, já está em produção. [Francisco Costa]

 

 

 

 

 

 

 

Francisco Costa - Com menos de 30 anos você tem experiência como fotógrafa, professora, livreira, jornalista. De que modo esses múltiplos talentos influenciam sua escrita?

 

Daniela Lima - Não sei se diria talentos, mas tentativas — algumas vezes frustradas — de me expressar. Ou melhor: de existir. Sempre que terminava de ler um romance tinha necessidade de encontrar um interlocutor, alguém com quem eu pudesse dividir a "maior descoberta da semana". Mas nem sempre as pessoas tinham tempo ou interesse de compartilhar as suas impressões sobre qualquer coisa.

 

Então, resolvi escrever sobre o que lia — quem sabe as palavras acertariam alguém? E, mais adiante, fazia os meus alunos ouvirem as tais descobertas. Nem sempre era sobre literatura, às vezes era filosofia ou história da ciência. Mas acho que o sentimento que me moveu a fotografar é o mais próximo daquele que me fez escrever o romance: tentar espelhar a minha maneira, às vezes muito torta, de enxergar o mundo. E o resultado me surpreendia muitas vezes, já que quase nunca o que eu vivia ou sentia era o que saía na foto ampliada ou no ponto final de um texto. Então, acabava sendo um diálogo comigo mesma e com quem quisesse fazer parte daquilo. Escrever era me desencastelar.

 

 

FC - Você tem formação em fotografia; desenha, pinta, canta. Com tantos meios de expressão à mão, por que escrever um livro?

 

DL - Poderia tentar romantizar, mas acho que é simplesmente pelo fato de eu escrever melhor do que pinto ou do que canto. E cantar ou pintar exigem uma disciplina que eu não tenho e nunca vou ter. Escrever parecia mais natural. Para escrever, eu só precisava ler.

 

 

FC - Sobre o que é Anatomia, seu romance de estreia, e por que a escolha por médicos — uma cardiologista, um psiquiatra e um residente de medicina — como personagens?

 

DL - Anatomia é um livro que reúne fragmentos da rotina e dos sentimentos de Laetitia Casta, cardiologista, que por tédio e dependência mútua, acaba se casando com o seu psiquiatra. E sobre como os laços afetivos podem se constituir através da doença: um precisa se alimentar da doença do outro para sobreviver. É um livro intimista, que pretende acompanhar a enxurrada de pensamentos — nem sempre conexos — de Laetitia, que sofre de depressão.

 

Também discuto o preconceito que existe até hoje com a psiquiatria. As pessoas entendem muito melhor a diabetes, doença que pode ser diagnosticada através de exames, do que a depressão, que tem um diagnóstico mais sutil. As doenças psiquiátricas leves são, muitas vezes, interpretadas como frescura, moleza ou qualquer outra coisa. Doença mesmo é cardiopatia, câncer, lúpus. Ainda carregamos um ranço medieval de preconceito contra a

psiquiatria.

 

 

 

 

 

FC - Sua escrita é extremamente elaborada e reflete um vasto repertório, comentado no prólogo do livro. De onde — ou de quando — vêm as suas referências como autora?

 

DL - Tudo o que enxergo e, principalmente, o que sinto ao enxergar, acaba se tornando referência. E isso se constrói desde a minha infância permeada pelos fados da Amália Rodrigues e das árias de Maria Callas, que a minha avó ouvia. E, para equilibrar o drama, os discos do Vinicius para crianças, como A Arca de Noé. Mais tarde, o cinema me influenciou muito. Poderia citar Antonioni, Bergman e Tarkovsky como grandes influências. Sonhava em imagens, como as que via nas tardes do cine Odeon, no centro do Rio de Janeiro. Também tem alguma coisa de filosofia, que descobri quando ainda era estudante de um colégio católico no Rio de Janeiro. Nietzsche me salvou da culpa cristã. E, na literatura, os grandes criadores de fluxo de consciência: Édouard Dujardin, que inspirou James Joyce, e William Faulkner. E eu colocaria na mesma prateleira Borges, Cortázar e Raduan Nassar.

 

 

FC - O livro tem sido elogiado pela crítica e foi imediatamente aceito por todas as editoras que tiveram contato com o original, fato raríssimo para um romance de estreia de qualquer autor. Ao mesmo tempo, é denso e complexo, exige dedicação do leitor. Como você enxerga esse paradoxo?

 

DL - Acho que o Anatomia, ou qualquer outro livro ou objeto de arte, exigem menos do leitor quando desistimos de entender o que o autor queria dizer com cada frase ou palavra. Não existe um significado universal para nada. As manifestações artísticas são obras abertas, que refletem o repertório e a vivência pessoal de cada leitor. E o repertório e a vivência vão mudando e refletindo na interpretação da leitura. Desisti de estudar teoria literária, depois que um professor quis tutelar, por mais de uma aula, a nossa interpretação de "suspiro de meia satisfação" num conto da Clarice Lispector. Enfadonho. Todas as interpretações são certas. Literatura é caleidoscópio e, ao mesmo tempo, espelho.

 

Foi gratificante ver o livro aceito sem demora por três boas editoras, mas a Multifoco me ofereceu o melhor prazo de lançamento e um tratamento muito respeitoso, então fechei com eles.

 

 

FC - Você já é uma escritora conhecida na internet, com um blog que ultrapassa milhares de visitas diárias, marca improvável até para escritores consagrados. A que atribui isso? De que modo essa exposição marca sua escrita ou seus planos profissionais?

 

DL - Usei o blog durante alguns anos como exercício literário. E acabei encontrando alguns leitores, interlocutores e fiz amigos. A minha escrita mudou muito ao longo desse processo e eu entendi que, depois de sete anos, o blog já não era o suporte adequado para os meus textos, que acabaram virando o Anatomia. Não sei como explicar esses números, a intensa visitação. Curiosidade? Identificação? Sinceramente, não sei. Pretendo continuar usando a exposição que o blog me permite para divulgar o Anatomia e o meu próximo romance, que já estou escrevendo.

 

 

FC - Por que a opção por um texto em fluxo de consciência?

 

DL - A pretensão de revelar os pensamentos da personagem na velocidade e na ordem (ou falta de) que eles surgem. Acho que a minha escrita vai ser sempre uma tentativa — muito frustrada! — de reescrever o Benjamin, de William Faulkner.

 

 

FC - Quando você se deu conta de que era uma escritora? Lembra de algum episódio marcante nesse sentido?

 

DL - Ainda não sei o que é ser escritor. Escritor é quem publica um livro? É quem escreve? Ou é quem ganha a vida escrevendo? Se for a última alternativa, ainda não me considero escritora. Mas eu decidi que queria escrever ainda na infância, simplesmente por me divertir com a linguagem: adorava os sons, a ambiguidade, todo o significado que podia caber numa simples frase.

 

 

FC - Como foi o processo criativo de Anatomia, você traça algum tipo de roteiro prévio?

 

DL - Não tenho essa disciplina. E acredito que se tentasse traçar um roteiro, acabaria frustrada. O livro vai tomando forma e me surpreendendo, assim como a vida me surpreende todos os dias. Estou sempre brincando de Hamlet.

 

 

FC - Quais são as suas expectativas agora?

 

DL - Quero continuar divulgando o Anatomia. O livro só existe, só se afirma, quando chega ao leitor. Quero terminar o meu segundo romance, que tem o título provisório de Apartar. Quero me dedicar a concluir tudo o que puder, sem largar os projetos pela metade, como fiz nos últimos anos. E, se no meio de tudo isso, eu conseguir ser feliz, já terei superado qualquer expectativa.

 

 

Trechos de Anatomia

 

As palavras eram uma tempestade seca, irrespiráveis; estiagem de caminhos, pedras, troncos, estrada de chão; e eu desdobrava a minha solidão diante dos seus olhos. Os cabelos e as unhas crescem e eu não percebo; não percebo o tempo e as vozes que ecoam olás e tudobens sem acabamento. Um tecido grosso cobre as palavras e os sentimentos — os verdadeiros sentimentos — adormecem na rotina, e: estou bem, e você? Não, não está tudo bem.

 

 

Gostaria de perguntar, talvez para esta enfermeira imbecil, se ela também sente que tudo neste hospital mais morre do que vive. Queremos dissimular a morte, esconder os cadáveres, cremar!, cremar!, deixar apenas os berçários à vista, como se gritos histéricos de recém-nascidos renovassem a vida. Se vocês estivessem na natureza, não teriam chance de sobreviver.

 

 

Paim é um marido eficiente. E o mundo preza, sobretudo, a eficiência. O sorriso adequado, os pratos servidos sem ruído, o movimentar suave das mãos que penteiam os meus cabelos todas as manhãs, a devoção, o fosso da devoção. A cegueira que brota deste amor que me desumaniza; que ama uma mulher descarnada.

 

 

Corpo: esta prisão através da qual nos impregnamos de vida. Esta pilha de dias que nos conduz, alógica, ao único destino possível. Inevitável. Vamos todos morrer de tempo; de dias. Corpo: esta maldita prisão! (...) O mal do século é a civilização. O excesso de civilização. Você precisa entender que o desejo, o faiscar da carne, veio antes de qualquer convenção social talhada em ouro ou tecido.

 

 

Anatomia: trailer

 

[O livro no Facebook: https://www.facebook.com/livroanatomia ]

 

 
 
março, 2012
 
 
 
 

Daniela Lima é carioca. Estudou Física na Universidade Federal do Rio de Janeiro, Fotografia no Ateliê da Imagem e Jornalismo na Hélio Alonso — e tentou extrair poesia (e alguma lógica) de tudo isso.

 

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Francisco Costa é jornalista e professor universitário em São Paulo.