Intimidade

 

 

Logo após a decolagem de um avião às 7 horas da manhã, o que fez meus ouvidos doerem com o zunido das turbinas, o telefone tocou. Eu estava em um apartamento próximo ao aeroporto de Congonhas. Estiquei totalmente o braço direito para ligar o botão da secretária eletrônica e ouvir a mensagem gravada: "Alô, Dani, é o Caio. Não se preocupe. Nunca gostei da ideia de morarmos juntos. Eu sempre soube que acabaria em merda. Quando você escutar essa gravação, já estarei longe. Um beijo, Amor".

Vesti a camiseta e fui preparar um café forte, sem açúcar. Liguei o rádio na estação de notícias e fiquei sabendo dos novos índices da taxa Selic. Naquele dia choveu, contradizendo a previsão do tempo. E o congestionamento na Bandeirantes estava obsceno, o que pude verificar ao abrir a janela do quarto e me surpreender por estar na avenida noticiada pela jornalista. Na cozinha, me perdi até encontrar o coador de papel e a gaveta das colheres.

Coloquei o pó e despejei a água. O cheiro subiu, ativando zonas adormecidas do cérebro. Preciso ir embora.

A fechadura estalou duas vezes — uma volta completa. Segurei a caneca fumegante nas mãos. Um rapaz loiro, dos cabelos nitidamente pintados, entrou de cabeça baixa. Levantou o rosto. Seus olhos estavam com rímel e sombra. O batom, igualmente mal tirado. Sua expressão foi de alguém que nunca tinha visto antes uma mulher de camiseta e calcinha segurando uma xícara vermelha de Nescafé.

Você é o Dani? Perguntei, procurando as minhas calças.

Sim, sou eu. O rapaz disse com a voz de alguém que mascava chiclete o tempo todo.

O Caio deixou uma mensagem na secretária eletrônica. Falou pra não se preocupar, tá tudo bem.

E você, quem é, cacete? Interrogou o sujeito caminhando na minha direção.

Não importa. Eu nem sabia que o nome dele era Caio.

E onde ele está?

Não sei. Deve ter ido embora.

Despejei o café na pia e andei o mais rápido que pude, buscando não pensar muito naquilo até conseguir pegar um ônibus para o metrô.

 

 

 

 

 

La Petite Mort

 

 

Foi depois de uma foda que ela me disse Tu acredita que existe vida após a morte?

Tínhamos acabado com uma garrafa de vinho que custou duzentos reais para comemorar a aprovação dela no vestibular de medicina da Federal. Duzentos paus sem contar o dinheiro do motel. No instante em que fui pagar a conta fiz mentalmente um cálculo de quantas laudas precisaria traduzir para juntar de novo aquele dinheiro. Mas logo varri esse pensamento da cabeça para não atrapalhar o clima de romantismo.

Que porra de pergunta é essa, Clarice?

O motel ficava um pouco afastado dos bairros residenciais, numa típica rua deserta de motéis. Além dos terrenos baldios e das pequenas casas sem garagem, na rua de cascalho só existia o letreiro em neon e a pomposa entrada inacessível para pedestres. O Palace estava na moda fazia alguns meses. Havia se instalado fazia pouco tempo na cidade e oferecia 50% de desconto para estudantes. Os outdoors que foram erguidos nas esquinas falavam a respeito do conforto e da boa comida do local. Um trocadilho detestável quando associado à imagem de uma mulher tomando suco em um canudo robusto.

Sem muito critério, escolhemos a suíte Cristal, seja lá o que isso signifique. Tinha, obviamente, uma cama redonda e um espelho no teto. Como sou míope, esse segundo atributo nunca me serviu pra nada. E é um pouco broxante meter usando óculos de grau com armação preta. Imaginei pedir um desconto na portaria usando esse argumento da inutilidade do espelho no pé direito para quem possui quatro graus de miopia e se recusa a usar lentes de contato. Mas no final foi somente uma ideia e eu não disse nada.

Antes de sair de casa imprimi um cupom promocional que dava direito a um café da manhã vagabundo como cortesia. Vinham dois cappuccinos em copos de isopor, dois pacotes de torradas — com uma torrada cada — e um potinho de geleia de uva. Na ocasião, as atendentes do Palace não depositaram a faca de plástico naquela roda, então comemos a geleia com o dedo mesmo.

Na ida para o motel apanhamos um táxi no início da Washington Soares. O motorista, cuja pele tinha um aspecto de gosma aderente a qualquer tipo de poeira, esticou maliciosamente os lábios em direção às orelhas largas quando informei o destino. Relaxa e finge que estamos indo para o aeroporto, eu disse à Clarice antes de entrarmos no Omega branco.

É que orgasmo em francês é La petite mort.

Quando falou isso, Clarice estava deitada de bruços e invertida na cama, de maneira que seus pés ficavam próximos à minha cabeça. Os lençóis já estavam amassados e embolados. Ela folheava singelamente um cardápio de assessórios sexuais etiquetados com preços descaradamente abusivos. Um gel aquecedor custava quase o preço da pernoite. Ainda tínhamos uma hora de estada e eu aguardava que ela terminasse logo aquele ensaio filosófico-sexual para voltarmos ao que interessava fazer naquele ambiente. Sequer tínhamos retirado os roupões dos sacos plásticos barulhentos. E a infinidade de botões na lateral da cama redonda também ainda não havia sido explorada em sua totalidade.

Certo. E o que tem? Eu disse.

Clarice se levantou e ficou de joelhos na minha frente, só de sutiã. Jogou as folhas A4 plastificadas e encadernadas no criado mudo e pegou uma batata frita grande. Invariavelmente ela jogava sal e ketchup nos palitinhos oleosos, e eu acabava ficando sem comer. Era impossível botar um na boca de tão salgado e encharcado de molho vermelho. Mas dessa vez ao menos tínhamos o vinho de marca afetada. O vidro pesado e grosso dava a impressão de que existia mais liquido dentro do que na realidade havia. Ela deu uma mordida na ponta da batata-frita e ergueu o outro pedaço como se fosse um giz escolar.

Quando a gente tá quase gozando, todas as células do corpo trabalham juntas para atingir o orgasmo. Nesse fragmento de tempo, nada mais importa. A temperatura corporal se eleva, mesmo que estejamos numa posição passiva, sem mover um músculo. Recebendo sexo oral, por exemplo. De repente, o organismo precisa muito daquilo. Não raciocinamos direito. E todos sabem quando o êxtase se aproxima. O coração dispara e os gemidos são involuntários, lançados de maneira orgânica, como se o corpo estivesse falando de dentro pra fora. Todas as células falando juntas, sabe? A única coisa da vida que desejamos é continuar naquele movimento. Até que todas as sensações se ativam de uma só vez e uma onda de energia inexplicável percorre todos os músculos do corpo. Nessa hora, se entregar não é mais uma opção. O único objetivo é gozar. E por alguns segundos é somente isso que conseguimos fazer.

Quando terminou de falar, Clarice sorria de maneira doce.

Beleza. Mas e a parte da morte, onde entra?

Tu não entendeu? São os segundos em que perdemos o domínio do corpo e da cachola. Nesse momento é como se tivéssemos morrido. Prazer e ausência de vida juntos. Lado a lado. Aí, quando o gozo acaba é o mesmo que tornar a viver. Mais ou menos como ressuscitar. Percebeu? Muito doido isso.

Clarice ficou esperando uma resposta minha ou somente um comentário do tipo Ah, interessante. Mas havia acabado de me dar uma informação sobre a qual eu não sabia opinar. E além do mais, sempre tive receio desse tipo de conversa. Ficamos um tempo calados, então eu disse:

Tu já tinha reparado que quarto de motel não tem janela, Clarice? Falei me espreguiçando e analisando as paredes pintadas de salmão.

Ela tentou conter a risada, mas acabou estourando numa gargalhada alta. Sorrimos juntos, de modo cúmplice.

Tu é bem pirado.

Clarice terminou de comer a batatinha, que até aquele momento estava viajando na sua mão esquerda acompanhando o ritmo da fala, e deu um gole no vinho que dizia ser da região noroeste de Portugal.

Afastei a travessa de fritas e tirei as taças do colchão de molas ensacadas. Enfiei a mão por baixo do sutiã rosinha de renda que ela usava. Era novo. Apalpei macio. Senti o peso do seu corpo sobre o meu. Nos beijamos em silêncio. E dali a pouco iríamos morrer para tornarmos a viver no instante seguinte.

 

 

 

 

 

História de Amor

 

 

Morreu como morrem as putas: assassinada. Estarei mentindo se disser que não gostei de vê-la esticada no colchão ordinário com uma perfuração na testa. Bem no centro, entre as duas sobrancelhas. Quando o policial me deu a notícia, precisei conter o sorriso, que ainda escapou pelo canto da boca. Não podia dar bandeira de suspeito. Não tive nada a ver com o crime e todo mundo sabe.

Recebi o telefonema no celular por volta de duas da manhã. Estava sozinho. Deitado no sofá eu ouvia a barulheira do boteco em frente de casa. Sons de garrafas e estrondos de dominó em mesas de metal não deixavam dormir. Me ligaram porque meu número era o primeiro de sua agenda. Questionaram se eu conhecia a moça. Respondi que sim. Sem comentar nada mais, o investigador pediu que eu fosse até o local. Um motel boca de estrada. Lugar ideal para adultérios ou assassinatos, como foi o caso. Adivinhei o que estava por vir. Era fácil profetizar o que acontecia nos sumiços dela. Acertei pela última vez.

Estava nua, esparramada em cima da cama. Braços e pernas jogados cada um para um lado. Três disparos — versão da polícia — três balas que entraram em sua cabeça pelo mesmo orifício. Uma seguida da outra, a mais ou menos cinco centímetros de distância do crânio e num intervalo de dois milésimos de segundo. A queima roupa, portanto.

Fui recebido pelo policial que havia falado comigo ao telefone. Cabelos terrivelmente pintados de loiro e um sotaque forçadíssimo de carioca. Explicou o acontecido. A espelunca ainda exalava pólvora e sangue.

Além de uma garrafa barata de vinho tinto, encontraram no local um pacote de sal grosso e um vidro de vinagre. Fazia tempo que ela saía com um pastorzinho analfabeto. Sujeitinho com cara e bigode de pilantra. Mas bom de oratória e dono de uma voz de locutor. Era capaz de ludibriar qualquer um. Mas ela não estava ludibriada, transava com ele porque queria. Safada, essa é a verdade. Provavelmente outra de suas aventuras sexuais. Médicos, professores, carteiros... Mais um pouco e completaria o quadro das possíveis profissões masculinas.

Não fosse isso, seria uma mulher perfeita. Porém, jamais soube diferenciar o certo do errado. O justo do injusto. O moral do imoral. Evidência clara de conflito entre o id e o superego. Ou se preferirem, um desarranjo de neurotransmissores no córtex frontal do cérebro.

Eu sabia que a danada acabaria pagando o preço por levar uma vida desregrada, ditada por bares, cervejas e sexo casual. Destino certo. E não adiantaria avisá-la. Esse fim era uma opção. Uma espécie de presságio voluntário. Coisa que só uma cabeça doentia como a dela poderia conceber.

 

 

 

 

 

 

[imagens ©francesca woodman]

 

 

 

Alexandre Landim Felix. Escritor e sociólogo. Estudou Ciências Sociais e Letras na Universidade de São Paulo. Paulistano, atualmente mora em Fortaleza/CE.