.

_anhangabaú

camelôs vendem dvds pornôs
enquanto travestis de um metro e noventa
& pirocas de trinta centímetros exibem-se com
o mesmo rigor dos soldados da guarda-real
britânica. god save the queen. vende-se tudo:
milho transgênico no pratinho da china,
guarda-chuvas de meteoritos e erva cidreira
ade plástico & em um canto qualquer seres
amontoados tem os dorsos cobertos por caixas
de papelão com impressões metalinguísticas: frágil,
manusear com cuidado, made in brazil
.
vômitos de anjos & pedrinhas que não estão no
aquário compõe o cenário da maldição da
película que não entrará para a lista dos filmes de
terror mais importantes da última década.
vagabundos em geral levam a vida como dá,
entre um puto & uma puta, uma boate
e um bote certeiro & os estagiários & executivos
& todos os tipos possíveis rumam às catracas
numa fila indiana do carrossel infinito que se segue
sobre o vale da sombra dos autóctones nus

 

 

_não é com roberto baggio

limpa a cal do terreno & com passos de caranguejo
busca o eixo do equilíbrio | mira, apenas mira | no
universo do rito somente o silvo de metal sensibiliza
os tímpanos | mira com a respiração suspensa |
& faz o ângulo engolir a esfera liberta em apoteose

 

 

_eixo

flexionar os pés sob a obrigatoriedade
da pontualidade

                      carga pesada pendendo
                      sobre as costas cansadas
                      de encostas retorcidas

o medo de cortar a curva
ou cerrar os olhos na serra
ou perder­se na saudade sem freio
da fotografia exposta no painel

ou o medo de
deixar que as vísceras
pereçam feito
os cortes do baú

garantir a carne alheia

moer a própria

 

 

_pito

a perna de grilo
chameja na noite
como se vagalume fosse.
dói
um tapinha não dói

a serviço
do papo de pluma
a baforada
se esvai por entre
a toalha já seca
[feito a boca]
pendurada
no varal dos fundos

um sorriso incenso na
fotografia que ninguém fez

 

 

_espinha de bacalhau

retirar a flanela laranja
do corpo fragmentado de madeira
unir campânula, corpos superior & inferior
barrilete & boquilha no adágio, molto tranquilo
umedecer a palheta com a língua ágil
do stacatto & prendê-la com a borboleta prateada
& com o pulmão de mil fumantes crônicos
& com os dedos atrofiados pela poeira
dos fechos enferrujados da maleta
reviver com pouco brilho
o clarinete de anos atrás

 

 

_pausa

semicerrado pela hipótese
do começo do labor pós quentinha

o olhar acompanha
as brechas que surgem e apontam
caminhos de fuga e estrelas do meio-dia

debaixo das claraboias mínimas
no tecido gasto do boné

a face proletária descansa sob o universo

 

 

_câmara clara

a objetiva
                objetiva

[tal qual
o peixe a isca
no anzol]

fazer
o olho de peixe
fisgar o sol

 

 

_rattus norvegicus

em plena luz vespertina
a ratazana de metal cinza chumbo
segue lentamente sua rota
pelas ruas do centro

curiosos observamos
a atração que ostenta
em letras garrafais:

el gran mamifero
o roedor dos moradores
dos extremos do mapa

permanecemos calados
e atônitos ao desfile


[Poemas do livro Dentro da Betoneira. Atibaia: Incubadora de Artistas, 2014]

 

 

 

[imagens pitschke]

 

 

Thiago Cervan (1985) é educador popular e poeta. Nasceu em São Bernardo do Campo/SP e vive em Atibaia/SP. É um dos idealizadores do Sarau do Manolo, do  Atibaia Slam Clube e do FLIPOP - Festival de Literatura Popular de Atibaia. Publicou dois livros de poemas: Sumo Bagaço (Edições Maloqueiristas, 2012) e Dentro da Betoneira (Incubadora de Artistas, 2014).