o secreto álbum de retratos

 

flash: a foto colada na geladeira
branca. anos sessenta. pingüim e tudo
geladeira redonda. branca e redonda. grávida de comida
                            [repetecos e imagens de sonhos

ela. toda fragmentos voando de um espaço para outro. folha de papel
sobre várias assinaturas

ela. folha de papel. memória. resíduo

                                                e testemunho

folha de ouvidos e apud às missas e galos. evangelhos e cartas

assiste-se        ave rara       a
flanar por entre matas e muros de oxós e concreto

      
      ninfa fada
          ninfada 

 mas não nada

  ninfa falante
      ninfalante 
 mas não nada

ninfa protetora e branca 
como a lua e geladeira

extática dramática tesa
vê dentro de si. buraco vermelho vivo:

                                                   ninfac afiada

ela. congela seus sonhos 
                          como quem condena papéis às resmas

a geladeira. branca e seminua por fora
o sorriso retratado no papel. umbigo

ela. ignora os sonhos. fotografa o instante
                 abre a geladeira. dá luz ao dia

 
nota de folhetim
 
os olhos dele
os olhos dele pareciam dois gritos
os olhos dele pareciam dois gritos na noite
os olhos dele pareciam dois gritos na noite de lua cheia
 
e ela sereia no dia da santa
e ela matreira de olho na santa
e ela cabreira sem o aval da santa
ignora
jobim-jobim

como os peixes cantores
os bem-te-quis
o som do mar e os poetas
            os jobins são espécies raras
                               só reconhece
                               quem já ouviu
 
 

ereto

gosto do teu sexo
na vertical forma
em que tenta se manter
h
o
m
e
m
anti-ante-logomakhía

do céu da sua boca:
fictícios
fogos de
artifícios
não espocam 
(entretanto
 apagam-se
 na surdez lúcida
 das horas)
 
 
 
 
 
baticum lê-lê

(baticum lê-lê)
 
Não. Não era o samba do crioulo doido. Mas era alguém sentindo dor. Talvez quase dor de doido. Vai saber. Tem de tudo nesses dias doidos feitos de doidos, sem contar os vinte e cinco mil tipos de baticuns, que ele lhe cantara aos ouvidos. Ele, aquele ser-imenso-túnel de luz que vira de frente, estando de lado, naquela noite. Ele. Todo corrugado, convidando à viagens corrugadas. Olhou para suas mãos: talvez por isso tenham envelhecido tão rápido. Tubo. Tubo. Tubo giratório. Suas paredes corrugadas eram iluminadas pela luz brilhante que vinha do fundo. Lá, onde se encontrava ele, o próprio túnel, o tubo. Ele: aquele 'em si'. Aquele que contara dos baticuns, como se esperasse dela alguma solução para o assunto.
 
Ela não era tão feia para não ser amada, nem tão bonita para ser.
 
(baticum lê-lê)
 
As panelas na cozinha batendo no fundo da pia, com ira, lhe davam náuseas. Era outrem sentindo dor. E lá se iam: panelas, pratos, copos pelos ares. Seus vôos começavam altos para logo terminarem no solo de cerâmica. Alô Base. Objeto não voador identificado acaba de aterrisar no meio da cozinha. Todos os cacos estão vivos. Peço pá e vassoura para nos recolher, devido à impossilbidade de nos recompormos por nós mesmos. E mesmo que...  Bom, a Base sabe como ficamos quando alguém nos cola. Buracos... buracos... Trincados, trincos, rincos, rasgos em nosso corpo compacto, único e uno. Somos, enfim, centenas, talves milhares, contando os mais miúdos.
 
E ela não era tão boa para ser amada, nem tão má para não ser.
 
(baticum lê-lê)
 
Os teclados eram tocados com fúria, enquanto ao seu lado o maestro batucava os dedos. Era impossível a concentração para o término do exercício. O que a fazia pensar: Quereria mesmo o maestro vê-la ao piano? Quereria mesmo o maestro vê-la tocando para a côrte? Ou tudo não passava de quiáqueras? Quiá! Quiá! Quiá! Ria-se, por trás do maestro, o demônio. Esse. Esse ser sem rumo que só goza porque não ri, e nunca o contrário. Ria-se todo. E no seu peito chacoalhavam suas correntes infernais. Nos seus pulsos tilintavam algemas de vários metais. E na sua orelha direita um homem nu balançava de um lado para outro, de olhos fechados e cabeça pendente. Talvez fosse morto. Mas se era morto, como sua carne não se decompunha? Como poderia se parecer apenas com um doente dormindo se era morto? Quiáqueras? Quiá-quiá-quiá quiá-quiá! Ria-se o demo, à demo, a demonstração do falível. Ria-se porque se cria real. Ria-se porque era boçal. Mas também ria-se, porque sentia vontade de rir.
 
Mas ela não era tão forte para ser forte, e nem tão fraca que pudesse ser.
 
(baticum lê-lê)
 
Os olhos verdes caminhavam para ela. Lê-lê. Presos num corpo que gingava malandramente enquanto andava em sua direção. Baticum lê-lê no peito. Eram os olhos mais lindos que já vira! Eles sorriam por si mesmos! Lê-lê. A enrodilharam e a encantaram. E a tomaram pelos braços. E deslizaram, ambos, pela pista umidecida pelo brilho de outros olhos. E quando percebeu, os olhos já eram bocas fechadas que se abriam e olhos abertos que se fechavam. Lê-lê. E se sentiu feliz como há muito tempo não se sentia. Rodaram: ela e os olhos. Deslizaram. Volitaram em torno de si e de seus sonhos. O crioulo e o samba doido ficaram para trás. Eram crioulo e samba mesmo? Os cacos... O caos? A cerâmica sem poros estilhaçada contra a cerâmica sem poros... O que ficara trás? Lê-lê. Quem quebrara o que naquele dia cinzento? De que cor mesmo era o cinzento..? Lê-lê. O maestro e os batuques... O tubo e os baticuns. Lê-lê. Quiá-quiá-Quê mesmo? O que balançava pendurado na orelha de Deus?  Quem era boçal? Lê-lê. Os olhos a puxaram pra mais perto e um imenso calor tomou conta do universo de olhos fechados e bocas abertas umas nas outras. Quem não olhasse não acreditaria.
 
Mas ela não era tão esperta para não acreditar, e nem tão inocente para desmentir.
 
(baticum lê-lê)
 
As terras e os homens se separaram. As mulheres e seus hímens se romperam. Os homens carregaram seus pênis em uma das mãos, e na outra seus sacos. E um mais um não era mais par. O átomo se partiu. No ínfimo do ínfimo do núcleo. E numa fissão aconteceu: seus cabelos se partiram ao meio, enquanto ela abaixava a cabeça tentando catar os cacos do mundo. Seus olhos se extraviaram enquanto ela tentava olhar para o mundo inteiro. E sua alma se rompera em mil almas. Todas aladas. Todas sortidas. De mil e uma espécies de almas. De uma em mil almas. E um estampido se ouviu, longe lá no fundo do universo. E era um único som, sem fúria, sem desejo, sem nada. Baticum. Lê-lê era eco.
 
Mas ela não era tão cheia para soar o eco, nem tão vazia para não soar.

 
 
santalum album

 
parecia alma deitada. parecia sândalo. greve. inércia. crime. parecia errática tanto quanto era. parecia ontem congelado de esperas. parecia o muro frio que separa dois olhares. parecia paz. parecia guerra fria. aclimatizada. acostumada. habituada em novo habitat. acomodada em novovelho habitat. amontoada de lembranças mudas que só o cérebro escuta. parecia sem cor. e na verdade era. e seus olhos brancos que pareciam cegos apenas reviravam o globo em busca de algo que contrariasse. mas não eram dubitáveis os sinais. parecia morta como ele. ele. ele que resfriara o corpo em carvão. que sossegara o faixo em cartaz. que apagara o pito com a mão antes de cuspir a última ditosa com escárnio. para logo em seguida sentir saudade. e ela chorara o caixão apenas. ela parecia sândalo para que ninguém olvidasse. parecia rosa para que ninguém tenteasse. mas era espinho seu espírito falido. era semblante seu momento lunático. logo acordaria do dia do abate. e ao telefone contaria detalhes.

 

 
Ana Peluso, paulistana, é designer gráfica e possui participações em algumas antologias, entre elas, DeZamores (São Paulo: Escrituras, 2003). Editou por 4 anos o site Officina do Pensamento e bloga eventualmente no palavra p.