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Ele é muito bacana sabe me enche de flor perfume camisola essas coisas e me leva também num restaurante lá na boca que eu nem sei o nome mas é lugar fino porque o garçom pergunta o tempo todo se a gente tá gostando da comida e é claro eu respondo que gosto mas não gosto é nada daqueles bichos dentro das cascas coisa mais nojenta que é aquilo vomito tudo no banheiro e depois desconto no vinho tinto e é aí que fico zonza converso alto e ele então me enche a cara de tapa diz que eu preciso aprender modos de mulher fina mãe é quem tem razão eu devia era dar graças a Deus de ter arrumado um homem bacana mas sabe como é dói sangra machuca só que depois ele fica tão arrependido mas tão arrependido que eu acabo pedindo desculpa de tanta pena que eu sinto coitado ele é muito bom não tem intenção de me bater é tudo culpa do nervoso de ver o nome no jornal com os jornalistas todos xingando ele de drogado corrupto assassino onde já se viu logo ele que todo ano coloca fantasia e dá brinquedo pra meninada lá do morro e é uma coisa linda de se ver todos os meninos gritando: OLHA O DEPUTADO! OLHA O DEPUTADO VESTIDO DE PALHAÇO! E o senhor acha que um homem feito ele que a criançada gosta tanto me bate de propósito? Eu é que sempre fui burra larguei cedo da escola e ele só quer me ensinar isso tudo é inveja desses políticos que inventam essas mentiras todas pra tirar ele de banda mas ele ganha e isto aqui nem é nada ele já pediu desculpa não quero dar queixa não ele é bom me enche de flor e um dia vai ser presidente e aí o senhor vai ver doutor o povo todo gritando de alegria: OLHA O PALHAÇO! OLHA O PALHAÇO VESTIDO DE PRESIDENTE!

Em óleo e sal mergulhou a criança, chamando-a: Maria. Delírios de mulher-dama que para a filha desejava a santidade em vida. Mas de nada adiantou que aquele corpo cobrissem de panos, tampouco ordenar que de Davi recitasse os cânticos. Ao sangue, ainda ralo, já se lhe enfiara a teimosia e tal e qual Jezebel o faria, mastigava entre os dentes o pulsar desesperado de um coração em permanente orgia.

E Maria virou "Betedeivis", homenagem ao confessor estrangeiro que, tentado, segredara-lhe um dia:

— Filha, tens os olhos da artista...

Se é verdade que do destino ninguém foge, deu cabo, a quenga, da própria sina: pariu, com fartura, seus amores e, escandalosa, chorou suas dores. A ela outra vida nunca coube, senão aquela que escolhera: a de ser livre — mesmo na tristeza — feito asas de borboleta.

E quando lhe perguntavam se daquela lida não deixava, um brilho manso dos belos olhos se apossava: sonho descarnado de puta antiga em se vestir de noiva para, em maio, quem sabe, se casar com Henry Fonda.

Mariza Lourenço, advogada, escritora e poeta, ex-representante da Comissão Mulher Advogada de Valinhos e Conselheira do Conselho Municipal dos Direitos da Mulher. Foi uma das editoras do PD-Literatura, PD-Criança e das Trilhas Literárias. Tem trabalhos publicados em vários sites e blogs na Internet, entre eles, o seu: http://marizalourenco.blogspot.com.
©miguel fematt