©carl pendle
 
 
 
 
 
 
 

Aspetti, signorina,

le dirò con due parole

chi son, che faccio e come vivo. Vuole?

 

Chi son? Sono un poeta.

Che cosa faccio? Scrivo.

E come vivo? Vivo.

 

"Che Gelida Manina", de La Bohème, de

Giacomo Puccini, Luigi Illica & Giuseppe Giacosa

 

 

Antologia poética

 

Do ótimo livro de H. E. Huntley sobre matemática, chamado sugestivamente The Divine Proportion:

 

"Antes de entrarmos no tópico principal, a beleza na matemática, será interessante que nos convençamos de que o esforço exigido para se aprender a apreciar valores estéticos se justifique pelo prazer que isso oferece".

 

Itálicos meus.

 

Depois, dirá que essa é uma "antologia poética" da matemática, e daí temos capítulos sobre Pitágoras, o Fi, o triângulo dourado, Fibonacci, a spira mirabilis, etc.

 

Não sei se vocês pecebem onde eu quero chegar.

 

 

 

Ostraniénie, ou o estranhamento

 

Normalmente, é uma coisa valorizada pela crítica literária. O autor causa um estranhamento. Isso hoje é o mesmo que dizer: ele é bom.

 

Causam-me estranhamento casas sem biblioteca, e suponho que isso bastará para admitirmos que estranhamento pode ser algo muito negativo, también.

 

 

 

Conteúdo, redundância

 

"Conteúdo" é balela pra vender telefonia celular ou curso universitário Uniesquina.

 

Ter em mente que quando escrevo "poesia", penso numa junção indissociável entre forma & fundo. Dei exemplos copiosos durante meu expediente aqui, e seria redundância viciosa repeti-los de nuevo.

 

Porque redundância pode ser algo bom. O sol nascer todo dia e se pôr toda noite é boa redundância. Nunca é o mesmo, aliás. Lembrar Heráclito: "Nunca entrarás duas vezes...". Etc.

 

 

 

Ideologia + Consumo

 

O mal das pessoas que ainda retêm algum raciocínio minimamente discriminativo é que costumam ser ideológicas. As duas piores coisas que o século XX nos legou, como idées fixes, foram estas: a ideologia em política (vazando já para outras práticas), e o consumo, entranhado nos hábitos sociais.

 

A ideologia: porque falseia o verdadeiro debate, que deveria, em política, ser o da efetividade das ações públicas para o chamado "bem comum". No velho mas preciso vocabulário de Maquiavel, a virtù (cf. Il Principe). Bem diferente das palavras flácidas e ensebadas (tipo Ricardo III) do ex-presidente Cardoso, ou dos rifões sanchescos do presidente Lula.

 

O consumo: porque tem um efeito hipnótico, uma contraparte psicológica que nulifica a vontade e a consciência das pessoas, impedindo-as de entender o processo em que estão envolvidas. O consumo se autonomizou da necessidade, que é o que estabelecia a base da idéia de sobrevivência, e do requinte, que organizava o conforto e a beleza. É uma psicose vivida por gente com dinheiro (que consome desordenadamente) e por gente sem dinheiro (que sonha consumir desordenadamente).

 

Se hoje é fácil perceber que esquerda e direita não fazem muito sentido como um a priori (ou, ao menos, espero que seja) por exemplos tirados da nossa recente experiência política, isso deveria produzir uma nova visão de política, um novo meio de estruturar a coisa, fora da peste ideológica.

 

Se o consumo está na base da ligitimação impensada e geral do capitalismo como exploração e desigualdade gritante (o que patrocina sobretudo a destruição acelerada do planeta), seria o caso de entendermos que é preciso modificar também essa estrutura.

 

"Mudança de paradigma", é o que os aproveitadores repetem no jargão que confere às coisas o ar de importância que já não conseguimos extrair delas mesmas, porque nos consideramos perfeitamente anestesiados. Não obstante, os oportunistas têm razão. Tardia, mas têm.

 

 

 

Ideologia, o "eu" & o "mundo", ou a arte como testemunho

 

Shakespeare, inglês do século XVI e começo do XVII, escreve sobre a Dinarmarca medieval, ou sobre a Itália de dois ou três séculos antes dele, e mesmo sobre a Roma Antiga. Dirão: "ora, mas era sempre a Inglaterra". Não exatamente.

 

Ele não elaborou nenhum poema em que se mostrasse particularmente preocupado com a situação da Inglaterra após a morte da virgin queen Elizabeth, ou com a peste (que dizimou o povo e fechou os teatros), ou com a morte do amigo e colega de teatro Christopher Marlowe, ou reclamando da chata da sua esposa, ou da situação amarga que viveram os teatros londrinos sob o supersticioso James I, e assim por diante. Sabe-se inclusive que Shakespeare, como Velásquez, buscou se tornar um cavalheiro reconhecido e de posses (o desenho do coat of arms de Shakespeare, a cruz de Malta no peito de Diego em Las Meninas).

 

Isso tudo não significa ser alienado, embora eu fosse capaz de achar alguns marxistas hidrófobos que dissessem o contrário, crendo-se entupidos de razão.

 

 

 

Ler

 

Vi em programas de TV dizerem que o brasileiro lê muito pouco, mesmo em comparação com economias menos fortes que a dele; o que, aliás, é óbvio.

 

(Para dizer algo mais do que o óbvio, seria necessário apontar que o brasileiro, quando lê, escolhe mal o que vai ler, e em geral lê apenas na acepção mais rudimentar da palavra.)

 

Fico muito satisfeito de perceber que o que eu dizia sozinho há cinco anos agora chega até à TV.

 

Mais interessante ainda é o tom de preocupação com o desmantelamento do cérebro das pessoas por esse motivo. Muito bom. Quem sabe é o suficiente para finalmente comover e despertar algum dos membros dormentes das autoridades.

 

Talvez em mais cinco, dez anos encontremos alguém na TV sugerindo mudar os currículos de literatura, com uma ou duas boas idéias para essa finalidade.

 

 

 

Para quem, a literatura?

 

Jean Cocteau deu uma resposta significativa.

 

Na Paris Review sabiam que ele conhecera o círculo de relações de Proust, e perguntaram por que tal dama da nobreza não leria Em Busca do Tempo Perdido.

 

Sua resposta foi: "pelo mesmo motivo que uma formiga não leria Fabre".

 

 

 

Blocos

 

A poesia, como toda arte, não segue um caminho unívoco, como foi a impressão dada por décadas de escolas literárias e de vanguardas, nas quais um sólido grupo de pessoas tenta escrever o mais parecido possível a partir de um conceito previamente estabelecido como a moda ou o revolucionário.

 

A decadência final da idéia clássica e prescritiva de "gênero".

 

 

 

Vanguardas

 

A vanguarda é um exercício particular, é o queimar da borra: torrou as cinzas de uma arte morta para libertar a viva do peso inútil.

 

Mas não é, de jeito nenhum, o ápice da invenção, que se encontra nos autores que não estão nem aí para teorias ou modas.

 

 

 

Velho & Novo

 

Pound: poetry is news that stays news. "Poesia é novidade que permanece novidade". E pode ser verso. E pode ter sido escrito 3.000 anos antes de Cristo, ou ontem à noite.

 

 

 

O rotundo designativo de "maior poeta"

 

Jacob Burckhardt, historiador da arte do século XIX que é um dos escritores e pensadores da minha mais cara preferência, escreveu, sobre Dante, o seguinte:

 

"Ele era a voz de maior peso de sua época sobre qualquer assunto".

 

Essa seria, eventualmente, a minha definição do maior poeta.

 

 

 

Sacerdócio associado a poesia

 

Poesia não é sacerdócio, de espécie alguma; normalmente, na verdade, é bem o contrário disso.

 

 

 

Touché

 

Como informou o sempre lúcido e arguto Jorge Coli, na Folha, Tzetan Todorov, o formalista, já está revisando as próprias idéias & apela para a leitura urgente de ficção e poesia, ao invés de teorias e críticas.

 

Ele deve ter percebido que críticos e escritores se tornaram tagarelas pretensiosos e ocos. Sua propedêutica sugere mesmo a leitura do Harry Potter.

 

Escrevendo há quatro anos aqui, insistindo nessas mesmas coisas, considero isso um touché, num golpe definidor da esgrima.

 

 

 

Critérios

 

Critérios são (ou melhor, deveriam ser) claros. A leitura, como um todo, não. A leitura deve sempre estar um pouco impregnada da natureza do seu objeto, para melhor descrevê-lo.

 

E a objetividade da literatura não é a mesma de uma lista de compras num mercado. Se fosse, eu não teria do que me queixar a respeito da crítica e do meio literário como hoje se encontram.

 

 

 

Abstração

 

Contra a abstração mas a favor da ambigüidade.

 

Brecht tem uma ode à dúvida.

 

Não no esquema palerma de relativismo total à la Derrida, mas no de cultivar a poesia no limiar de uma arte, sem pretender burocratizá-la com abstrações de uma ciência bem ou mal concebida.

 

 

 

Concentração e materialidade

 

O especificamente poético é a concentração. Concentração não é suprimir marcadores textuais ou ligações sintáticas para as palavras flutuarem ressoando estruturalmente.

 

Isso é interessante e prova algumas coisas sobre linguagem, mas concentração poética é eliminar tudo o que não sirva à apresentação do que se diz, e isso significa um conhecimento da natureza das palavras e de como elas servem a dizer as coisas que se diz.

 

 

 

Estacionar

 

Muitos continuam simplesmente repetindo um poema de Drummond, o da pedra, 80 anos depois dele o escrever. Na época, ele fez aquilo como um modo de épater le burgeois, e escreveria depois poemas notáveis, inteligentíssimos, coisa de craftsman.

 

Mas seus imitadores, é claro, esqueceram completamente deles: se agarraram ao vago bordão "poesia do cotidiano", que vem a ser uma ótima desculpa para olharem liricamente pela janela de seus escritórios.

 

 

 

Materialidade

 

Nunca tomar "materialidade" ao pé da letra. Seria uma literaridade posta no lugar de uma metáfora, ou de um uso simbólico, aproximativo. Como acreditar factualmente naquele casal que habitava o Éden, depois expulso de lá por um sujeito mal-humorado, com asas e uma espada flamejante.

 

Materialidade, no sentido de concreção na poesia, não deve ser entendida como tentar transformar o poema numa coisa, mas no sentido de um rigor de escrita que otimize e concentre o jogo discursivo e sintático ao máximo nível expressivo numa língua.

 

 

 

Cargos administrativos & executivos

 

Sempre desconfiei que aquele que deixasse sua arte por um cargo de direção ou administração não era precisamente um interessado naquela arte: preferia mesmo sentar sobre ela, numa cadeira de espaldar alto, e distribuir tarefas para asseclas com palha no lugar de cérebro.

 

 

 

O livro & o poder

 

Os livros continuam sendo um perigo para o poder. Agora nem precisam mais queimá-los, já que raramente são publicados, e não são lidos.

 

Basta ver como ministros, secretários, gestores de projetos culturais et caterva ignoram o livro sistematicamente. De duas, uma: ou não sabem absolutamente nada sobre isso (o que não deixa de ser uma possibilidade muito verossímil), ou voluntariamente evitam a necessidade de considerá-lo com seriedade.

 

No fundo, acho que sabem que o bom livro, chegando às mãos de pessoas se educando, pode transformar insatisfação sem direção numa coisa muito mais potente e ameaçadora: um refinamento intelectual, um desafio aos privilégios.

 

PS: desconfie de todo "artista" que use jargão de economês, que fale em "agregar valor". Esse não pensa em arte ou cultura como algo diferente de uma vitrine de sapatos.

 

 

 

Educação

 

Boa parte das pessoas capazes de reformular o ensino está na folha de pagamento do governo, em universidades públicas.

 

(Parênteses: isso é uma prova de que o governo não deve entender a cadeia de eventos que se origina no pagamento de um imposto por um cidadão e que resulta mais tarde na formação de alguém que passou uns 20 anos estudando em escolas públicas para determinado fim.)

 

Essas pessoas alguma vez foram consultadas sobre o assunto? O governo reuniu as pessoas mais brilhantes desses lugares para perguntar o que está acontecendo com a educação? Ou o que deveria acontecer? O governo pensou em usar o mapa fornecido pelo ENEM, que o próprio governo paga para realizar, para saber onde é necessário maior investimento?

 

E que tipo de educação? Nein. A resposta a todas as perguntas acima é uma só.

 

 

 

Uma "era mecânica", ou, melhor dizendo, "maquinal"

 

O que fez essa "era mecânica"? A era mecânica espalhou livros ruins e poluição em quantidade bestial pelo mundo, e anulou o cérebro daquilo que veio a se chamar, pelo inefável mau-gosto dos intelectuais, "massa"; nesse sentido, mudou o mundo.

 

A era mecânica é o alvo burocrático das críticas de todo indivíduo civilizado, por quê?

 

Por brutalizar e banalizar tudo, por impedir o refinamento: é a multimerda, definida por Joan Brossa.

 

março, 2007