O BOM FILHO DA PUTA

 

Ele é filho da puta

Quer dizer, não é filho da puta

Que se xinga filho da puta

E somente o filho da puta

Um bom filho da puta.

 

O filho da puta

Tem orgulho de ser filho da puta

"Sou filho da puta e daí!"

"Gosto de ser filho da puta!"

Filho da puta é o que diz

Que não é feliz.

 

A mãe sabe que ele é filho da puta

E fica preocupada que o tratem como filho da puta

Afinal ele é filho da puta,

Mas não é filho da puta, no sentido FDP.

  

O filho da puta vai se dar bem na vida

Porque não se importa em ser filho da puta

E isso faz dele mas que um filho da puta.

 

 

 

 

 

A QUE PARIU A PUTA

 

A que pariu a puta

E a puta que pariu

São lindas e moram em Pasárgada...

 

A puta que pariu além

De muito legal

Ainda é uma expressão muito sonora-interessante

Assim como a que pariu a puta...

Mesmo que as duas sejam semi-virgens

E não tenham parido porra nenhuma...

 

 

 

 

©panibe

 

 

 

DIAS ONTEM E DIAS AMANHÃ

 

Há dias com cara de ontem

E outros com cara de amanhã.

 

Os dias ontem

São dias vídeo tape

Dias já vivi isso antes.

 

Eles podem ser bons ou não

De diversos jeitos e cores,

Mas sem nada de novo.

 

Ao contrário, os dias amanhã

São dias novidade, descoberta,

Dias construção, aventura.

 

Há pessoas que gostam

Dos dias ontem,

E outras

Dos dias amanhã.

 

Há dias com cara de ontem

E outros com cara de amanhã.

 

Quero menos dias ontem

E mais dias amanhã

Enquanto tiver energias de felicidade

E vontade de respirar.

 

Quero amanhãs a cada hoje.

 

Quero aprender com as ruínas Incas

Que são antigas,

Mas são sempre amanhã.

 

Por que existem dias com cara de ontem

E outros com cara de amanhã.

 

 

 

 

 

IGUAIS

 

Todas as poesias são iguais.

 

Iguais a poesias

Querendo ser diferentes.

 

No mundo das palavras

Talvez haja uma fotocopiadora

E muitas coisas copiantes

Que talvez se pareçam

E coisas mais semelhantes ainda

Viradas para o espelho

Fotografadas e registradas por testemunhas

Mas não tão iguais à poesia.

 

No mundo das palavras

Pra não falar que tudo é igual

As letras são diferentes

Milhares, milhões de tipos e raças

Mas sempre formam a mesma palavra

E se juntam na frase igual

Com outras igualmente repetidas

Impressas em 273 vias, dos dois lados.

 

O mundo das palavras é legal

Meio isso de novo

O mesmo verso

Uma nova coisa igual

O mesmo verso

Fica na cabeça, repetindo

O mesmo verso

O mesmo verso

O mesmo verso.

 

O problema é que quando

O poeta sai do mundo das palavras

Esquece o verso repetido

E começa tudo de novo.

 

No mundo das palavras

Encontra-se uma poesia

Que tem vida própria

Fica alegre, cheia de gracinhas

Romântica, cheia de tesão

Ou crítica,

De mal com a vida, meio preguiçosa.

 

Toda poesia é exagero

Esta, por exemplo,

Passa dos limites

Portanto, segue os padrões.

 

 

 

 

 

MINASTERIOSAS E GERAIS

 

Asminasgerais não são misteriosas

São minasteriosas

Fácil de menos de não desentender

 

São misteriosas para

Os ladrões de ouro

Os autores de devassas

Os que dizem que sabem tudo

Os amantes da ordem e progresso

 

As Minas são mineiras

Na cadeira da varanda

São mulheres cachoeiras

Com cheiro de jardim

Com flores nos cabelos

Com vestido de sorriso

E vontade de ficar

Sem pressa de acabar

 

GOSTOSA! GOSTOSA! GOSTOSA!

 

As minasteriosas e gerais

Pedem pra parar com esse negócio

De gente que pergunta

E faz cara de aflição

 

Chega de coisa estranha

Porque as coisas minasteriosas

São boas de gostar

Passar a mão no seu cabelo

No seu corpo tão macio

Nos seus vales de mulher

 

GOSTOSA! GOSTOSA! GOSTOSA!

 

Asminasgerais só se apresentam

Pra quem sabe namorar.

 

 

 

 

 

AS BUCETAS NUNCA FALAM

 

As bucetas nunca falam

Mas não param de sorrir

 

As bucetas nunca falam

Que são feitas de morango

Nunca contam seus encantos

Não tem nada pra dizer

 

As bucetas nunca falam

Pra não pararem de sorrir

 

Algumas fazem xuak-xuak

Sua risada de alegria.

 

 

 

 

 

SOL E LUA

 

Entre o nascer e o pôr do sol

Há muita aventura

Entre o nascer e o pôr da lua

Há muita ternura

 

Com muita preguiça

Cheio de despertar

Corre o corredor correndo

Rumo ao nascer do sol

Que se levanta lentamente

Sobe ao céu

 

Ao alvorecer, muita alegria

Ao anoitecer, muita magia

 

Entre o nascer e o pôr da lua

Há muita ternura

O corredor que corre correndo

Encontra a lua

Que nasce crua e nua

Agora, é ele que

Sobe lentamente ao céu.

 

 

 

 

 

CAPITALISMO

 

O artista será pago com elogios.

Quatro mil e quinhentos aplausos

Pagos em três parcelas

Sem entrada.

 

Como FGTS receberá

Duas moças apaixonadas que serão

Apresentadas e selecionadas

Pelo departamento de recursos humanos.

 

Ganhará gritinhos bem agudos

E olhares maliciosos

Como gratificação.

 

Além disso,

112 abraços e

Muitos

Parabénsfantásticomaravilhosodocaralhogosteilegaletc.

 

 

 

 

 

 

 

Jairo Faria Mendes (Belo Horizonte/MG). Jornalista, escritor, pesquisador e ensaísta. Graduado em Comunicação Social/Jornalismo, Mestre em Comunicação e Cultura pela UFRJ, Doutor em Comunicação Social pela UMESP, tendo feito parte do doutorado na Universidade de Coimbra, Portugal. Professor da Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ). Autor do livro O ombudsman e o leitor (Belo Horizonte: Editora O Lutador, 2002), participou das coleções Pedagogia da comunicação (São Paulo: Angelara Editora, 2006) e Personagens da imprensa brasileira (São Paulo: Imprensa Oficial, 2008).